O Evangelho de Judas
Introdução e História (páginas impressas 493–497)
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A Questão de Judas
Nenhuma descoberta desde os Manuscritos do Mar Morto abalou o mundo cristão como a do recém-traduzido “Evangelho de Judas”. A história apresentada no texto curto mas poderoso revela um plano no qual fins celestiais justificaram meios monstruosos. A traição tornou-se colaboração e o homicídio assemelhou-se a suicídio, enquanto Yeshua e Judas começaram uma dança macabra para a eternidade. O cristianismo ortodoxo tem a sua doutrina, o seu cânone e a sua história política, mas estes são bastante diferentes daqueles expostos no Evangelho de Judas.
Como o ponto de vista político ortodoxo o teria, a morte de Yeshua foi procurada pelas autoridades romanas, quando ele ganhou seguidores e foi declarado “Rei” pelo povo judeu. Os líderes religiosos judeus também estavam planeando a sua morte, crendo que Yeshua estava tentando reformar o judaísmo e arrancar-lhes o controle sobre o povo. O Evangelho de Judas põe em questão esta visão aceite da intriga política que conduziu à traição e morte de Yeshua.
Porta-voz da Fundação Maecenas, uma das companhias em Basileia, Suíça, trabalhando no projeto de Judas, o Diretor Mario Jean Roberty relata: “Acabámos de receber os resultados da datação por carbono, o texto é mais antigo do que pensávamos e data de um período entre o início do terceiro e quarto séculos. Não queremos revelar o lado excecional do que temos, exceto que o texto de Judas Iscariotes pôs em questão alguns dos princípios políticos da doutrina cristã.” Imaginai Judas, o homem que toda a Cristandade odiou por dois mil anos, agora descrito como o escolhido, o mártir, o bode expiatório, e o homem instruído e designado pelo próprio Yeshua para orquestrar e executar a maior traição de todos os tempos. Mas traição ordenada pelo traído não é traição de modo algum, mas um seguidor leal e devoto executando os desejos do seu mestre.
Qual foi a recompensa de Judas por trair Yeshua? Segundo o Evangelho de Judas, foi reconhecimento especial por Yahweh e a bênção de Yeshua, o salvador da humanidade. Estranhamente, há evidência na nossa própria Bíblia para substanciar esta alegação. Judas pode ter recebido a promessa de uma posição de autoridade juntamente com os outros apóstolos.
O Evangelho de Judas vira-nos de cabeça para baixo e força sobre o leitor uma visão nova e desconfortável. Judas teve conhecimento e instrução especiais de Yeshua? Devemos agradecer-lhe pela morte de Yeshua? É traição letal designada pela vítima suicídio ou homicídio? É este quisling assassino realmente um santo? Quem é este homem, Judas? Que sabemos nós acerca dele? Donde veio ele? Que queria ele? Que fez ele?
Estas são apenas algumas das perguntas deixadas a reverberar na mente do leitor.
Teorias de Judas abundam. Ele é apresentado como ganancioso e egoísta, bem como espírito santificado. Alguns dizem que ele estava possuído, alguns dizem que ele era um santo, e alguns crêem que ele seja o próprio Satanás.
Foi Judas o ímpeto de morte, sepultamento e ressurreição para Yeshua, e assim o daemon que nos salvou? Será Judas o Anticristo que encontraremos no fim dos dias, ou estará ele governando e julgando as tribos de Israel?
Cada história tem dois lados. Examinemos ambos os lados, começando com O Evangelho de Judas, a sua história, a sua teologia e o seu texto.
Entendendo a Intenção
O Evangelho de Judas pode ser entendido num nível mais profundo se o seu fundo for explorado primeiro. Pode-se fazer as perguntas próprias acerca do texto de “quem, o quê, quando, onde e porquê”. A pergunta de “quem” escreveu o Evangelho de Judas nós podemos nunca saber. O que o autor estava tentando dizer será explorado em profundidade. A ciência pode e estreitou o “quando” e o “onde”. Por que a humanidade escreve é axiomático. Nós escrevemos para documentar, explicar, expressar ou convencer. No fim, essas são as razões. O tempo dirá se o autor de Judas teve sucesso. Num tempo em que o Gnosticismo lutava por influência na Cristandade, o Evangelho de Judas foi escrito para desafiar as crenças da ortodoxia da igreja recém-emergente, para explicar a teologia gnóstica e para propagar a seita. Para entender melhor o evangelho, ele deve ser lido com estes objetivos em mente. Por séculos a definição de Gnosticismo tem sido em si mesma um ponto de confusão e contenda dentro da comunidade religiosa. Isto deve-se em parte à aplicação sempre alargante do termo e ao facto de que várias seitas de Gnosticismo existiram enquanto a teologia evoluiu e começou a fundir-se no que se tornou o cristianismo principal. O Gnosticismo continuou a evoluir; é a teologia em vigor no tempo em que o Evangelho de Judas foi escrito que deve ser considerada e entendida antes de tentar render ou ler uma tradução. Fazer de outro modo tornaria a tradução turva e obtusa. Torna-se o dever tanto do tradutor como do leitor entender as ideias que estão sendo defendidas e os termos que transmitem essas ideias. Um domínio de teologia, cosmologia e termos relevantes é necessário para uma transmissão clara do significado dentro do texto em questão. Com isto em mente, examinaremos brevemente a teologia, cosmologia e história gnósticas. Focar-nos-emos primariamente nas seitas gnósticas existentes no primeiro ao quarto séculos d.C., visto que se crê que a maioria dos Evangelhos Gnósticos foi escrita durante esse tempo. Foi também durante esse tempo que as reações dentro da ortodoxia cristã emergente começaram a intensificar-se e os Evangelhos de Judas foram escritos. A queda de muitos livros escritos sobre o tópico da religião é a tentativa de de algum modo remover a história e as pessoas da equação. A história molda a religião porque molda a perceção e a direção dos líderes religiosos. A religião também se desenvolve e evolui numa tentativa de dar sentido ao universo como ele é visto e entendido no tempo. Assim, para verdadeiramente compreender um conceito religioso, é importante conhecer a história, as pessoas e a cosmologia do tempo. Estas áreas não são separadas, mas estão continuamente interagindo.
O que é o Evangelho de Judas?
O que é o Evangelho de Judas e por que difere ele tão grandemente das histórias evangélicas da Bíblia? O Evangelho de Judas é considerado um texto gnóstico. Os Gnósticos eram uma seita do cristianismo e, como qualquer seita ou religião, eles lutavam para expandir e continuar sob a perseguição da ortodoxia recém-emergente do dia. O Evangelho de Judas pode ter sido escrito para ajudar a reforçar e continuar o Gnosticismo. Isto pode explicar o seu afastamento radical da história evangélica tradicional, bem como a razão da sua criação. Na verdade, uma maneira de olhar para qualquer livro religioso, cânone ou não, é como uma tentativa de explicar as próprias crenças, de persuadir outros para essas crenças, e de interpretar a história e enredos conhecidos à luz da própria teologia e cosmologia. Isto é feito não apenas para adicionar peso ao próprio sistema de crenças, mas também simplesmente porque o homem vê os eventos como tendo relevância para o que ele ou ela tem como verdade. Como previamente declarado, o Evangelho de Judas é, acima de todas as coisas, um evangelho gnóstico, visto que ele gira em torno de um conhecimento especial ou Gnose dado a Judas por Yeshua. Este conhecimento representava aquilo que os Gnósticos tinham como a verdade universal.
A História do Evangelho de Judas
O recém-descoberto Evangelho de Judas é muito controverso por várias razões. Teologicamente, ele é divisivo devido à sua teologia gnóstica. A controvérsia principal no texto gira em torno da teoria de que Yeshua pediu a Judas que O traísse a fim de cumprir o Seu destino e as escrituras. Se isto é verdade, faria de Judas um santo e não o pecador e traidor como crido pela igreja principal. O texto também é interessante simplesmente porque está escrito em copta. Documentos do período de tempo e região onde a língua copta era nativa são um achado raro. A palavra copta é uma corrupção árabe da palavra grega Aigyptos, que por sua vez vem da palavra Hikaptah, um dos nomes da cidade de Mênfis, a primeira capital do antigo Egito. Nunca houve um estado copta, ou um governo copta propriamente dito; contudo, a palavra tem sido usada para definir geralmente uma cultura e língua presentes na área do Egito com um período particular. A história conhecida dos coptas começa com Menés, o primeiro Faraó, que uniu os reinos do norte e do sul do Egito por volta de 3050 a.C. A antiga civilização egípcia sob o governo dos Faraós durou mais de 3000 anos. São Mina (nomeado pelo rei) é um dos principais santos coptas. Ele foi martirizado em 309 d.C. A cultura veio a ser reconhecida como contendo língua, arte, arquitetura distintivas, e até certos sistemas religiosos. Há até um sistema de igreja cristã copta muito distintivo com o seu próprio cânone, que contém vários livros a mais do que os das Bíblias protestante ou católica. A mensagem e o significado do Evangelho de Judas são convincentes, nem que seja por outra razão senão a da sua visão diferente, que força-nos a reexaminar o lugar, o caminho e as ações de Judas e o seu ato de traição. Os Evangelhos e o Livro de Atos contam a história de Judas como alguém que foi influenciado pelo diabo. O fim a que Judas chegou. Os livros canónicos referem-se a Judas como traidor, atraiçoador, e como alguém influenciado pelo diabo. Contudo, o Evangelho de Judas vira esta ideia de cabeça para baixo, alegando que Judas foi pedido, se não requerido, a planear e executar a traição que seria o ímpeto para a crucificação. O plano era entregar Yeshua às autoridades para que a escritura e a profecia pudessem ser cumpridas, e Yeshua era a pessoa que concebia o plano. A maioria dos eruditos concorda que os Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João foram escritos entre a data da morte de Yeshua e cerca de 90 d.C. O Evangelho de Judas foi escrito originalmente em grego por volta de 180 d.C., no mais cedo. Se isto é verdade, Judas não poderia ter sido o autor. Para Judas ter escrito a sua obra, ele teria cerca de 120 anos de idade no tempo da sua escrita. Descontando esta possibilidade, o autor original é desconhecido. As datas dos textos originais baseiam-se em palavras e uso comuns a certos períodos de tempo. Isto é comparável a como a gíria é usada hoje. Palavras diferentes foram usadas em tempos diferentes na história. É assim que os eruditos determinam a idade de uma língua antiga. Outra maneira de estreitar a data do texto original é procurar referências a ele noutros escritos. Isto poria a data marcando o mais tarde que o texto poderia ter sido escrito. Irineu, traduzido por Raemers, declara: “Além destes Evangelhos, sabemos que uma vez existiu um Evangelho de Bartolomeu, um Evangelho de Tadeu mencionado no decreto do Papa Gelásio, e um Evangelho de Judas Iscariotes em uso entre os Cainitas e falado por Santo Irineu.” Na tradução de Roberts-Donaldson de Irineu, o pai da igreja declara: “Outros, outra vez, declaram que Caim derivou o seu ser do Poder acima, e reconhecem que Esaú, Coré, os Sodomitas, e todas as tais pessoas, são relacionados com eles mesmos. Por esta conta, eles acrescentam, eles foram assaltados pelo Criador, ainda nenhum deles sofreu dano. Porque Sofia estava no hábito de levar aquilo que lhe pertencia deles para si mesma. Eles declaram que Judas, o traidor, estava completamente familiarizado com estas coisas, e que só ele, conhecendo a verdade como nenhum outro, cumpriu o mistério da traição; por ele todas as coisas, tanto terrenas como celestiais, foram assim lançadas em confusão. Eles produzem uma história fictícia deste tipo, a qual eles intitulam o Evangelho de Judas.” Irineu continuou a dizer que os escritos vieram do que ele chamou uma seita gnóstica “Cainita” que justava com o cristianismo ortodoxo. Ele também acusou os Cainitas de louvarem o assassino bíblico Caim, os Sodomitas e Judas, os quais eles consideravam como o guardião de mistérios secretos. Conhecer as datas dos escritos de Irineu clarifica ainda mais a data para cerca de ou antes de 180 d.C. Claro, isto afeta o Evangelho de Judas apenas se concluirmos que o texto de que Irineu falou é o mesmo texto que temos hoje. Infelizmente, não há maneira de saber com qualquer certeza, mas temos algumas pistas. Caim não é mencionado na versão do Evangelho de Judas que temos hoje. Além disso, a evolução da cosmologia tende a ser do simples para o complexo, e esta tendência é mostrada na versão atual, visto que Yaldabaoth, que também é chamado “Nebro”, o “rebelde”, é apresentado como o criador de Saklas, e é Saklas quem é descrito mais tarde no Evangelho de Judas como o criador da humanidade e do mundo físico. Contudo, noutros escritos gnósticos, Yaldabaoth é o “demiurgo” ou formador do mundo, e é claramente identificado como a mesma divindade que Saklas. Isto significa que no Evangelho de Judas houve uma divisão entre Yaldabaoth e Saklas, conduzindo a uma cosmologia mais complexa. Isto indica que o Evangelho de Judas que temos hoje foi escrito mais tarde do que aquele de que Irineu fala, visto que no seu tempo estas divindades eram uma e a mesma.
Ora o arconte que é fraco tem três nomes. O primeiro nome é Yaltabaoth, o segundo é Saklas (“tolo”), e o terceiro é Samael. E ele é ímpio na sua arrogância que está nele. Porque ele disse: “Eu sou Deus e não há outro Deus além de mim”, porque ele é ignorante da sua força, o lugar donde ele tinha vindo. Apócrifo de João, ca. 200 AD.
Quanto à datação da cópia achada no Egito, a formação de certas letras também muda com o tempo e o estilo das letras dentro dos textos coloca as cópias dentro de um certo período. O texto de Judas de 26 páginas é uma cópia em copta do Evangelho de Judas original, que foi escrito em grego no século anterior. Testes de datação por radiocarbono, bem como peritos em línguas antigas, estabeleceram que a cópia foi escrita entre 220 e 340 d.C. O Evangelho descoberto foi escrito em papiro, provavelmente num mosteiro gnóstico no Egito. Embora outras cópias possam ter sido feitas, elas foram provavelmente perdidas na campanha do quarto século de Santo Atanásio para destruir todos os textos heréticos. Todos os textos não aceites pela igreja recém-estabelecida deviam ser queimados. Heresia não era para ser tolerada, e o Gnosticismo era considerado no topo da lista. Não só o Gnosticismo era diferente da teologia ortodoxa, ele condonava uma busca pessoal por conhecimento, e isso era algo fora do controle da igreja. Para manter o seu controle, a nova igreja tinha de esmagar estas crenças. A fim de proteger o texto dos soldados de Atanásio, pensa-se que um monge ou escriba gnóstico enterrou cópias de certos textos gnósticos numa área de túmulos no Egito. Estes não foram descobertos até ao final dos anos 1970. O Evangelho era um de três textos achados que estavam encadernados juntos num único códice. O evangelho foi desenterrado em 1978 por um agricultor. Ele achou um pequeno recipiente como uma caixa de túmulo numa caverna perto de El Minya, Egito. Na pequena caixa selada estava parte de um códice, ou coleção de textos devocionais. O agricultor vendeu o códice a um negociante de antiguidades no Cairo. O negócio foi mantido secreto, mas foi relatado ter ocorrido em 1983. O negociante de antiguidades desconhecia o conteúdo do códice quando ofereceu o evangelho para venda ao erudito de estudos coptas, Stephen Emmel, da Universidade de Münster da Alemanha, e a outro erudito. O encontro ocorreu num quarto de hotel em Genebra, Suíça. Foi Emmel quem examinou o códice e primeiro suspeitou que as folhas de papiro discutiam Judas. Embora o texto mais do que intrigasse Emmel, o preço pedido era tão alto, a $3 milhões de dólares dos EUA, que não havia maneira de pagar a compra. Ao vendedor foi oferecido um preço que era uma ordem de magnitude mais baixo do que o preço pedido. Isto, o vendedor tomou como um insulto e o negócio parou. Devido à frustração trazida por não ter a sua ganância satisfeita, o negociante armazenou o códice num cofre num banco de Hicksville, N.Y., por 16 anos. Ali, longe do ar seco do deserto, na caixa com humidade mais alta, ele deteriorou-se e desfez-se, até que a negociante de antiguidades baseada em Zurique, Frieda Nussberger-Tchacos, o comprou em 2000 por uma soma muito menor do que o preço pedido original. O códice foi então adquirido pela Fundação Maecenas para a Arte Antiga, na Suíça, em 2001. A fundação convidou a National Geographic para ajudar com a restauração em 2004. Nos 5 anos seguintes, milhares de pedaços de papiro foram recolocados juntos como um quebra-cabeças. Milhares de pedaços, tão pequenos que continham apenas uma letra ou duas, foram restaurados à sua posição no texto usando pinças e imagens de computador. Uma vez completo, uma equipa de eruditos traduziu o documento para inglês, o melhor que puderam, considerando a condição do documento e o número de pedaços em falta. O original restaurado está agora alojado no Museu Copta do Cairo. Uma rendição do texto em copta pode ser vista em: http://www.nationalgeographic.com/lostgospel/_pdf/CopticGospelOfJudas.pdf Por causa da idade extrema e do mau tratamento do texto, muito dele é ilegível. Há lacunas e buracos no códice. Linhas inteiras estão faltando. Algumas partes da tradução foram feitas numa base de “melhor palpite”. Se havia letras faltando de palavras ou frases comuns, os tradutores podiam assumir e substituir letras e até palavras ou frases. Quando as lacunas se tornavam maiores ou o significado da frase era incerto, os tradutores simplesmente notavam a ausência de dados. Nesta rendição, tentámos dois movimentos ousados. Desejámos apresentar uma interpretação mais envolvente para o público, o que necessariamente exigia notas e explicações disponíveis no ponto em que as ideias eram encontradas. Também desejámos tentar preencher algumas das lacunas no texto, se possível. Como questão de aviso, deve entender-se que os tradutores originais fizeram um trabalho notável com o texto que simplesmente faltava, tendo-se desintegrado em pó e poeira, para nunca mais ser lido. O texto apresentado aqui toma o trabalho feito por muitos outros e coloca o Evangelho de Judas numa linguagem e formato mais legíveis, juntamente com comentário em linha. Ele então expande o texto, preenchendo as lacunas o melhor que pôde ser feito, baseado num entendimento da teologia gnóstica, informação histórica, referências textuais e fluxo lógico de conversa.
Todas as palavras ou frases entre parênteses indicam aquelas adições feitas ao texto, seja como questão de preencher as letras, palavras ou linhas em falta; ou como questão de clarificação de redação ambígua no texto original ou na sua tradução. Quando uma palavra podia ser traduzida de mais de uma maneira, uma barra “/” foi usada para notar as várias escolhas. Os comentários estão marcados claramente como “Notas” e são colocados em fonte itálica dentro do texto. O leitor deve manter em mente a função provável do texto. O título dá alguma pista. Não é “O Evangelho Segundo Judas”, mas é, em vez disso, “O Evangelho de Judas”. Isto indica que o escritor queria exaltar Judas, a sua posição e contribuição segundo a teologia que está sendo defendida e propagada pelo texto. Conhecendo estas coisas, as palavras e linhas em falta no texto podem ser uma questão de suposições educadas e razoáveis. Elas são, contudo, suposições, não obstante. Olhemos agora para o Evangelho de Judas.
O Texto — Ditos 1–45 (páginas impressas 498–504)
O Evangelho de Judas
Esta é a proclamação, que foi secretamente revelada a Judas Iscariotes por Yeshua durante aquele período de oito dias que incluiu (que foi) os três dias antes de ele (Yeshua) celebrar a Páscoa (um tradutor tem “celebrado a sua paixão / sofrimento).
Nota: A proclamação não é o logos, palavra ou Messias para a igreja ortodoxa. A palavra aqui é uma proclamação de juízo como num veredito de tribunal.
1. Yeshua apareceu sobre a terra para realizar milagres e atos maravilhosos a fim de salvar a humanidade. Porque alguns se conduziam de maneira justa e outros continuavam nos seus pecados, ele decidiu chamar os doze discípulos.
2. Ele começou a falar-lhes acerca dos mistérios que estavam além deste mundo e o que aconteceria no fim deste mundo (no fim). Ele frequentemente mudava a sua aparência e não era visto como ele mesmo, mas parecia uma criança (alguns tradutores têm aparição ou espírito) quando ele estava com os seus discípulos.
3. Ele veio sobre os seus discípulos na Judeia uma vez, quando eles estavam sentados juntos piedosamente (treinando a sua piedade — treino em piedade). Quando ele se aproximou dos discípulos, ele viu que eles estavam sentados juntos, dando graças e dizendo uma oração sobre o pão (Eucaristia / ação de graças). Ele riu.
4. Os discípulos perguntaram-Lhe: “Rabi, por que estás Tu rindo da nossa oração de graças? Não agimos nós apropriadamente?” Ele disse: “Eu não estou rindo de vós. É apenas que vós não estais fazendo isto porque vós quereis. Vós estais fazendo isto porque o vosso deus (tem de ser / será) louvado.”
5. Eles disseram: “Rabi, tu és o (terreno / único) filho do nosso deus.” Yeshua respondeu: “Como me conheceis vós? (Pensais vós que me conheceis?) Eu digo-vos, verdadeiramente, ninguém entre vós nesta geração (nesta raça) me entenderá.”
6. Os seus discípulos ouviram isto e ficaram enfurecidos e começaram a murmurar profanidades e a escarnecê-lo nos seus corações. Quando Yeshua viu a incapacidade deles de entender o que ele lhes disse (a estupidez deles), ele escarneceu: “Por que ficastes vós tão perturbados que vos enfurecestes? O vosso deus que está dentro de vós, (e a vossa própria falta de entendimento guia-vos e) instigaram esta ira na vossa (mente / alma). (Eu desafio) qualquer homem entre vós a mostrar-me quem é (suficientemente entendido) para trazer o homem perfeito e ficar e enfrentar-me.”
7. Todos eles disseram: “Nós somos suficientemente fortes.” Mas nos seus (verdadeiros seres) espíritos nenhum ousou ficar diante dele, exceto Judas Iscariotes. Judas foi capaz de ficar diante dele, mas até ele não pôde olhar Yeshua nos olhos, e ele virou o seu rosto.
Nota: É incerto quanto à razão por que Judas não olhou para Yeshua. Era um costume de respeito não olhar um superior nos olhos. Ou Judas foi incapaz de olhar para Yeshua ou foi constrangido pela posição de Yeshua como seu Rabi.
8. Judas disse-Lhe: “Eu sei quem tu és e donde tu vieste. Tu és do aeon (reino ou reino) eterno (eterno) de Barbelo (o reino eterno de Barbelo). Eu não sou digno de falar do nome daquele que te enviou.”
9. Yeshua sabia que Judas era capaz de entender (mostrar / pensar acerca de) algo que era glorioso, então Yeshua disse-lhe: “Afasta-te (afasta-te / a uma distância) dos outros e eu dir-te-ei acerca dos mistérios de Yahweh (o reinado de Yahweh / reino de Yahweh).”
10. “É possível para ti chegares lá, mas o caminho causar-te-á grande tristeza, porque tu serás substituído para que os doze possam estar completos com o seu deus de novo.” Judas perguntou-lhe: “Quando me dirás tu como o grande dia de luz amanhecerá para esta geração (raça)? Quando explicarás tu estas coisas?” Mas enquanto ele perguntava estas coisas, Yeshua deixou-o.
11. Ao amanhecer do dia seguinte depois que isto aconteceu, Yeshua apareceu aos seus discípulos. Eles perguntaram-Lhe: “Rabi, onde foste tu e que fizeste tu quando nos deixaste?” Yeshua disse-lhes: “Eu fui a outra geração (raça) que é uma geração (raça) maior e mais santa.”
12. Os seus discípulos perguntaram-lhe: “Yeshua, que é esta grande raça que é superior a nós e mais santa do que nós, que não está agora neste reino (reino)?” Quando Yeshua ouviu isto, ele riu e disse-lhes: “Por que estais vós pensando nos vossos corações acerca da raça (geração) poderosa e santa? Verdadeiramente eu dir-vos-ei. Ninguém nascido nesta era (reino / aeon) verá essa (geração / raça), e nem mesmo a multidão (exército) de anjos (controlando) as estrelas governará sobre essa geração (raça), e nenhuma pessoa mortal (corruptível) pode associar-se (pertencer) a ela.”
13. “Essa geração não vem de (um reino) que se tornou (mortal / corrompido). A geração de pessoas entre (vós) é da geração da humanidade (de inferior / sem) poder, a qual (não pode associar-se com os) outros poderes (acima) pelos (quais) vós governais / sois governados.” Quando os (seus) discípulos ouviram isto, todos eles ficaram perturbados no (seu coração / espírito). Eles ficaram sem palavras (não podiam proferir uma palavra).
Nota: Isto começa uma distinção entre a geração ou raça da humanidade, que é inferior, decadente e não iluminada, e a “grande geração ou raça”, que é iluminada, incorruptível e eterna. Há apenas duas raças: aqueles que têm gnose e aqueles que não têm. Interessantemente, Yeshua tem o seu lugar com os discípulos na grande geração.
14. Noutro dia Yeshua veio a (eles). Eles disseram-lhe: “Rabi, nós vimos-te num (sonho), porque todos nós tivemos (sonhos pesados acerca de uma noite em que tu foste levado / preso).” (Ele disse): “Por que (viestes vós a mim quando vós vos) escondestes?”
15. Eles disseram: “Havia (um edifício imponente com um grande altar nele e doze homens, (os quais nós diríamos) os sacerdotes, e havia um nome, e uma multidão de pessoas esperando (suportando por causa da sua perseverança) naquele altar, (para o sacerdote (vir e receber) as ofertas). (Contudo) nós continuámos esperando (nós fomos tenazes também).” (Yeshua perguntou): “Como eram (os sacerdotes)?” Eles disseram: “Alguns (deles) jejuariam por duas semanas; (outros) sacrificariam os seus próprios filhos, outros as suas mulheres, (todo o tempo) em louvor (oferta) de humildade uns com os outros; alguns têm sexo com outros homens; alguns assassinam; alguns cometem uma pletora de pecados e atos de crime. E os homens que estão diante do altar invocam o teu nome (‘autoridade), e em todos os atos que brotam da sua falta de conhecimento (falta de luz), os sacrifícios são levados à conclusão (pelas mãos deles) (o altar permaneceu cheio através do trabalho manual deles de abater os sacrifícios).” Depois que eles disseram estas coisas, eles ficaram inquietos e quietos.
16. Yeshua perguntou-lhes: “Por que estais vós incomodados? Assim seja. Eu digo-vos que todos os sacerdotes que estiveram diante daquele altar invocam o meu nome. Eu disse-vos muitas vezes que o meu nome foi escrito no (juízo) desta raça (e nas) estrelas através das gerações humanas. Em meu nome (estas pessoas) plantaram árvores estéreis, (e fizeram-no) sem qualquer honra.”
17. Yeshua disse-lhes: “Vós sois como aqueles homens que vós vistes conduzindo as ofertas no altar. Esse é o deus que vós servis, e os doze homens que vós vistes representam-vos. O gado que vós vistes que foi trazido para sacrifício representa as muitas pessoas que vós conduzistes (conduzireis) ao desvio diante daquele altar. (Vós) estareis (conduzireis / representareis) e usareis o meu nome dessa maneira, como também as gerações dos piedosos e todos vós permanecereis leais a “ele”. (Algumas traduções têm — “O senhor do caos estabelecerá o seu lugar desta maneira.”) Depois de “ele” outro homem conduzirá de (o grupo de fornicadores), e (outro conduzirá) no altar daqueles que) assassinam crianças, e outro daqueles que são homossexuais, e (outro) aqueles que jejuam, e (um estará de) o resto daqueles que se poluem e que são ilegalidade e que pecam, e (de) aqueles que dizem: ‘Nós somos como os anjos’; eles são as estrelas que (fazem tudo acontecer / trazem tudo a um fim).”
18. “Foi dito às gerações humanas: ‘Olhai, Deus recebeu o vosso sacrifício das mãos de um sacerdote.’ Mas o sacerdote é um ministro de erro (ministro em erro / ministra mas está em pecado). Mas é Yahweh, Yahweh de todos (a plenitude do divino), que ordena: ‘No último dia (de tempo) eles serão envergonhados (alguns têm — “no fim dos dias”).’”
Nota: Yeshua diz aos discípulos que eles são leais ao deus errado. Ele continua a dizer que eles são aqueles que assassinam, fornicam e pecam. Além disso, Yeshua diz-lhes que eles conduzirão pessoas a um abate espiritual como o gado que eles viram sacrificado no seu sonho. Neste tempo os 12 incluíam Judas. Isto, juntamente com outros tais versículos, conduziu muitos eruditos a concluir que o Evangelho de Judas não estava descrevendo Judas como a pessoa santificada que os tradutores originais pensavam que ele fosse.
19. Yeshua (disse-lhes): “Parai (de sacrificar aquilo que) vós tendes (e parai de pairar) sobre o altar. Os sacerdotes estão sobre as vossas estrelas e os vossos anjos. Eles já chegaram ao seu fim ali. Então deixai-os (serem enredados / disputar / lutar) diante de vós, e deixai-os em paz. (Não sejais manchados por esta geração, mas em vez disso comei o alimento de conhecimento dado a vós pelo grande.)
Nota: Nós veremos “estrelas” referidas frequentemente no texto. Elas são usadas para simbolizar dois conceitos únicos. Pensava-se que na criação do cosmos, luminárias foram criadas, as quais eram poderes controlando o destino de cada pessoa. Também se pensava que cada pessoa era designada uma estrela como a sua casa eterna ou lugar de descanso. Uma pessoa boa subiria à sua própria estrela para governar e descansar. Assim, as estrelas eram poderes conscientes, executando ordens de Yahweh, e também eram lugares de destino para aqueles que escapam do plano material.
20. Um padeiro não pode alimentar toda a criação sob (o céu). E (eles não darão) a eles (um alimento) e (darão) a (aqueles da grande geração o mesmo alimento). Yeshua disse-lhes: “Parai de lutar com (contra) mim. Cada um de vós tem a sua própria estrela, e cada (Linhas estão faltando aqui. O texto poderia ler “pessoa tem o seu próprio destino”. Ou possivelmente, “pessoa que faz bem habitará e descansará na sua estrela”). (Todas as coisas acontecem na sua própria estação e todas as estações são designadas. E na (estação) que veio (é primavera) para a árvore (do paraíso) deste aeon / era (e ela produzirá) por um tempo (então murchará), mas ele veio para regar a de Yahweh e (também regar esta geração) que durará, porque (ele) não corromperá / desviará) o (caminho de vida para) essa geração, mas (guiá-la-á) da eternidade à eternidade.” 21. Judas perguntou-lhe: “Rabi, que tipo de fruto produz esta geração?” Yeshua respondeu: “As almas de cada geração humana morrerão. Contudo, quando estas pessoas (deste reino) tiverem completado o seu tempo no reino e o fôlego vivente as deixar, os seus corpos morrerão, mas as suas almas continuarão e elas serão subidas (serão levantadas / serão levadas).” Judas perguntou: “Que fará o restante das gerações humanas?” Yeshua disse: “Não é possível plantar sementes em (solo rochoso) e colher o seu fruto. (Esta é também a maneira (da) (corrompida) geração), (os filhos deste reino) e Sofia / sabedoria corruptível) (é / são) não a mão que criou pessoas mortais), para que as suas almas subam aos reinos eternos acima. Amém, eu digo, (que nenhum) anjo (ou / de) poder será capaz de ver esse (reino de) estes a quem (pertencem aquelas) gerações santas (acima).” Depois que Yeshua disse isto, ele partiu.
22. Judas disse: “Rabi, tu ouviste todos aqueles outros, então agora ouve-me também. Eu vi uma grande visão.”
23. Quando Yeshua ouviu isto, ele riu e disse-lhe: “Tu (és o) décimo terceiro espírito (daemon), por que estás tu tentando tanto / por que te excitas tu assim? Contudo, fala alto, e eu serei paciente contigo.” Judas disse-lhe: “Na visão eu vi-me a mim mesmo e os doze discípulos apedrejando-me e perseguindo-me muito mal / severamente / fortemente. E (eu estava seguindo-te e eu) cheguei a um lugar onde eu vi (uma casa grande diante de mim), os meus olhos não podiam abranger (compreender) o seu tamanho. Muitas pessoas estavam rodeando-a, e a casa tinha um telhado de plantas (relva / vegetação verde), e no meio da casa (havia uma multidão) (e eu estava ali contigo), dizendo: ‘Rabi, leva-me para dentro / (a casa) juntamente com estas pessoas.’”
24. Ele respondeu e disse: “Judas, a tua estrela desviou-te. Nenhuma pessoa de nascimento mortal é digna de entrar na casa que tu viste. É um lugar reservado para os santos. Nem mesmo o sol ou a lua ou o dia (luz) governará ali. Apenas os santos viverão ali, no reino eterno com os anjos santos, sempre (alguns têm o texto como — “serão firmemente estabelecidos com os anjos santos para sempre”). Olha, eu expliquei-te os mistérios do reino e eu ensinei-te acerca do erro das estrelas; e (eu) enviei-o (no seu caminho) sobre os doze anjos (aeons).”
Nota: O Livro Perdido de Enoque fala de estrelas, que são as forças guias do homem e da natureza, errando. Elas tornam-se deslocadas e fora de ordem. Elas tiveram de ser colocadas ou dirigidas de volta aos seus caminhos próprios. Ver The Lost Book of Enoch, de Joseph Lumpkin.
Nota: Há 12 Eras Astrológicas. Os 12 signos do zodíaco compõem um caminho eclíptico de 360 graus ao redor da Terra, e leva 25,920 anos para fazer a Precessão dos Equinócios. Cada signo é composto de 30 graus de longitude celestial. Cada grau da precessão é igual a 72 anos terrestres, e cada ano é igual a 50 segundos de graus de arco de longitude celestial. Num dia terrestre de 24 horas, a Terra roda os inteiros 360 graus da eclíptica, permitindo a uma pessoa ver todos os 12 signos.
25. Judas disse: “Rabi, poderia ser que a minha semente (espiritual) conquistará os governantes de poder cósmico (também poderia ser rendido: “está sob o controle dos arcontes ou governantes de poder cósmico”)?”
26. Yeshua respondeu e disse-lhe: “Vem (comigo para) que eu (possa mostrar-te o reino que tu receberás. Eu mostrar-te-ei o que há de vir de ti e desta geração), mas tu ficarás entristecido quando vires o reino e toda a sua raça (de pessoas).” Quando Judas O ouviu, ele disse-lhe: “Que bem é se eu o recebi, vendo que tu me puseste à parte dessa raça?” Yeshua respondeu-lhe e disse: “Tu tornar-te-ás o décimo terceiro, e tu serás amaldiçoado pelas outras gerações, e tu virás a governar sobre elas. Nos últimos dias eles amaldiçoarão a tua subida à santa (raça / reino).”
Nota: Eu escolhi a palavra “daemon” e não “demónio” porque o significado do texto não é claro. Um daemon é uma divindade ou ser sobrenatural de uma natureza entre deuses e humanos. No versículo 24 Yeshua diz a Judas que ele nunca será digno de entrar na casa, que simboliza o reino eterno. Mais tarde, no versículo 26, Yeshua parece indicar que Judas será amaldiçoado pelos outros discípulos, mas será levantado para entrar na geração santa nos últimos dias. É possível que o tempo intermédio seja passado no que a Bíblia chama “o seu próprio lugar”.
27. Yeshua disse: “(Segue / vem comigo), para que eu possa ensinar-te os (segredos) que nenhuma pessoa (já) viu.”
Nota: Isto começa um mito de criação baseado em certa cosmologia gnóstica setiana. A narração da história parece ser uma tentativa de ligar a cosmologia gnóstica aos ensinamentos de Yeshua, a fim de adicionar validade e autoridade à história da criação e às entidades, bem como assistir na propagação da seita.
Há um reino grande e ilimitado, cujo âmbito nenhuma geração de anjos viu (e nele) O Grande (Espírito) Invisível está, e nenhum olho de anjo jamais viu, nenhum pensamento do coração (mente) jamais o entendeu, e nenhum nome pode ser-lhe designado (ele não pode ser nomeado).
28. “E uma nuvem brilhantemente resplandecente apareceu ali. O Grande Espírito disse: ‘Que um anjo venha a existir como meu assistente (atendente / ajudador).’” “O grande anjo, o iluminado, divino, Auto-Gerado (Auto-Criado) emergiu da nuvem. Por causa dele, quatro outras luzes angelicais (luminárias), (Harmozel, Oroiael, Daveithai e Eleleth) começaram a existir de outra nuvem, e elas tornaram-se assistentes (ajudadores / atendentes) para o anjo Auto-Gerado (mensageiro). O Auto-Criado proclamou: ‘Que (ali) venha a existir (uma estrela / Adão),’ e ela (ele) veio a existir (de uma vez). Ele (criou) a primeira estrela (luminária / ser brilhante, resplandecente) para reinar sobre ele.”
Nota: Aqui temos um texto confuso, a tradução do qual pode ir de uma de duas maneiras. As palavras em falta no meio do texto poderiam ser Adão, que também é conhecido como Adamas, ou poderia referir-se a uma estrela, visto que a referência seguinte é a uma luminária. A direção do texto não é clara, exceto que se concorda que a palavra “ela” é usada no texto.
“Ele disse: ‘Que anjos (mensageiros) comecem a existir para adorar (adorar) (ele),’ e uma pletora inumerável tornou-se existente. Ele disse: ‘(Que haja) um aeon de luz,’ e ele começou a existir. Ele criou a segunda estrela para governar sobre ele, para prestar serviço juntamente com a pletora inumerável de anjos. É assim que ele criou o resto dos aeons de luz. Ele fez deles governantes sobre eles, e ele criou para eles uma pletora inumerável de anjos para os assistir.”
29. “Adamas (Adão) estava na primeira nuvem luminosa (a expressão divina inicial) que nenhum anjo jamais viu, incluindo todos aqueles chamados ‘Deus’. Ele (era aquele) que (criou o aeon iluminado e contemplou) a imagem e produziu-o segundo a semelhança (deste) anjo. Ele fez a (geração) incorruptível de Sete aparecer (dos) doze (aeons) e a semelhança (deste) anjo. Ele fez setenta e duas luzes angelicais aparecerem nos imperecíveis vinte e quatro (estrelas / luzes angelicais / luminárias). Ele fez setenta e duas luzes angelicais aparecerem nos imperecíveis vinte e quatro (estrelas / luzes angelicais / luminárias). As setenta e duas luzes angelicais elas mesmas fizeram trezentas e sessenta luzes angelicais aparecerem na geração imortal, como a vontade do Espírito ditou. As setenta e duas luzes angelicais elas mesmas fizeram trezentas e sessenta luzes angelicais aparecerem na geração imperecível, como a vontade do Espírito ditou. A vontade do Espírito, que o número delas deve ser cinco para cada. A vontade do Espírito, que o número delas deve ser cinco para cada. aparecer na raça imortal, seguindo a vontade do Espírito, que o número delas deve ser cinco para cada.”
Nota: Sete é o filho de Adão e era considerado divino como Adão era divino. Pensava-se que Sete tinha recebido o conhecimento que traria liberdade do reino material, e assim, salvação.
30. “Os doze reinos (aeons) das doze luzes angelicais compõem / designam o seu Pai, com seis céus para cada aeon, de modo que há setenta e dois céus para as setenta e duas luzes angelicais, e para cada (há cinco) céus, (produzindo todos) trezentos e sessenta (céus para as estrelas). Foram-lhes dados autoridade e uma hoste inumerável de anjos, para glória e adoração (adoração), (e então ele deu os) (espíritos puros) virgens, para glória e adoração de todos os aeons e os céus e os seus firmamentos (céus).”
Nota: Os números designados aos vários aeons, anjos e estrelas têm significado tanto no simbolismo numérico bíblico como na numerologia pitagórica. Um — Unidade, soberano, Yahweh, causalidade. Dois — Dualidade e / ou fusão. Três — Espiritualmente completo, plenitude, criação. Quatro — Fundações, sistemas, ordem. Cinco — Espírito, graça, movimento. Seis — Humanidade. Sete — Yahweh, sabedoria, conhecimento, perfeição. Doze — Lei, governo, autoridade. Treze — Amaldiçoado, além ou sem lei. Vinte e quatro — Governo celestial, anciãos, um sistema. Dualidade dentro do sistema. Setenta e dois — Ambos os elementos de dois e sete, bem como o elemento de conclusão. Trezentos e sessenta — Elementos de três e seis, bem como o significado de um ciclo completo, como um ciclo anual. Um fim, e um novo começo.
31. A totalidade (reunião) destes imortais é chamada o cosmos, isto é, perdição / decadência / corrupção, pelo Pai e pelas setenta e duas luzes angelicais / luminárias que estão com o Auto-Criado e os seus setenta e dois aeons. No cosmos o primeiro humano apareceu com os seus poderes incorruptíveis.
Nota: Este primeiro humano é Adamas ou Adão. Deve notar-se que o nome “Adão” também pode ser rendido como “Homem” em hebraico.
32. E o aeon que apareceu com a sua geração e o aeon em quem estão a nuvem de conhecimento e o anjo, é chamado El.
Nota: El era o nome de um deus semítico que era chefe entre o panteão de deuses que afetam a natureza e a sociedade. Ele é pai da família divina e presidente da assembleia divina na ‘montanha da assembleia’, o equivalente do hebraico har mo'ed, que se tornou, através da tradução grega de Coisas Criadas, ‘que é como os rios também eram metaforicamente pensados. No Jardim do Éden bíblico, um rio fluía para formar os quatro rios, Tigre, Eufrates, Giom e Pisom.’ El expressava o conceito de governo ordenado, justiça e criação. A Bíblia nunca estigmatiza a adoração cananeia de El, cuja autoridade em assuntos sociais era reconhecida pelos Patriarcas. A sua consorte era Aserá, a deusa mãe, representada em santuários cananeus por uma árvore natural (hebraico ashera) como a árvore da vida.
33. (Ele criou) o aeon, (depois disso) (El) disse: “Que doze anjos venham a existir (a fim de) governar sobre o caos e o (cosmos / perdição).” E olha, da nuvem (chamada Sofia) apareceu um (anjo / aeon) cujo rosto brilhava com fogo e cuja aparência estava contaminada com sangue. O seu nome era Nebro, significando “rebelde”. Outro anjo, Saklas, também veio da nuvem. Então Nebro criou seis anjos — bem como Saklas — para serem assistentes, e estes produziram doze anjos nos céus, com cada um recebendo um pedaço dos céus.
Nota: Nebro pode ser um demónio feminino que acasala com Saklas; outros chamam Nebro pelo nome “Yaldabaoth (filho do caos). Yaldabaoth e Saklas são ambos nomes dados à divindade insana ou deficiente que criou o mundo físico. Também a leitura poderia ser influenciada pelo facto de que em algumas mitologias Nebro é um demónio principal e Saklas é um anjo principal. Nebro tem o mesmo significado que Ninrode, que é “rebelde”. Os judeus e gregos do dia eram literalistas. Cada e toda palavra das escrituras era tomada pelo valor de face. Portanto, o deus que criou Adão e Eva era um deus limitado e tangível. Ele andava e falava e fazia perguntas, as respostas às quais ele não parecia saber. Ao construir uma história de criação que inclui Saklas, os problemas foram resolvidos. Agora as referências a deuses múltiplos foram restritas; isso deixou o Supremo Yahweh para ser “Yahweh”.
34. “Os doze governantes (aeons) falaram com os doze anjos: ‘Que cada um de vós (receba uma porção) e que eles (que estão nesta) geração (sejam governados por estes) anjos’:
O primeiro é Sete, que é chamado Messias. O (segundo) é Harmathoth, que é (governante principal do submundo). O (terceiro) é Galila. O quarto é Yobel. O quinto (é) Adonaios. Estes são os cinco que governaram todo o submundo, e primariamente sobre o caos.
Nota: Estes cinco nomes estão provavelmente associados aos cinco planetas conhecidos no tempo em que o Evangelho de Judas foi escrito. Eles foram colocados nos seus caminhos e cursos para manter ordem e dar luz, tanto real como espiritual.
35. “Então Saklas disse aos seus anjos: ‘Criemos um ser humano na similitude e segundo a figura / imagem / representação (do Supremo Yahweh).’ Eles moldaram Adão e a sua mulher Eva, que é chamada Zoe / vida, quando ela ainda estava na nuvem.”
Nota: Zoe é outro nome para Eva na Septuaginta.
36. Porque é este nome (vida) que todas as gerações buscam o homem, e cada uma delas chama a mulher por estes nomes. Ora, Sakla não ordenou (como lhe foi instruído), mas (ele ordenou) as gerações (do homem a viver tanto tempo / por um período definido de tempo), (mas ele criou-os na sua (de Saklas) semelhança). E o (governante Saklas) disse a Adão: “Tu viverás longo, com os teus filhos.”
37. Judas disse a Yeshua: “(Que comprimento) é o longo espaço de tempo que os humanos viverão?” Yeshua disse: “Por que estás tu curioso acerca disto? Adão e a sua geração viveram a sua duração de vida no lugar onde ele recebeu o seu reino, com a sua longevidade concedida pelo seu governante (como numerado com o seu governante).”
38. Judas disse a Yeshua: “O espírito humano morre?” Yeshua disse: “É por isso que Deus (o deus deste reino) ordenou a Miguel que emprestasse espíritos às pessoas para que elas servissem (fossem em servidão), mas o Grande ordenou a Gabriel que desse espíritos à grande geração (raça) que não tinha governante sobre ela (uma geração que não pode ser dominada). Ele deu o espírito e a alma. Portanto, o (restante / montanha) de almas (emprestadas voltará ao deus deste reino no fim).”
Nota: Esta passagem indica duas linhas de criação. Para aquelas pessoas criadas pelo deus deste mundo, o anjo Miguel foi ordenado a designar temporariamente almas à sua criação. Para manter as suas almas, elas foram escravizadas a adorar o deus deste mundo. Em contraste, o Grande ordenou a Gabriel que desse almas àqueles da grande geração para a eternidade.
39. “(Não havia) luz (neste mundo para brilhar) em redor (das pessoas para) permitir (o) espírito (que está) dentro de todos vós habitar neste (corpo) entre as gerações de anjos. Mas Yahweh fez com que conhecimento fosse (dado) a Adão e àqueles com ele, para que os reis do caos e do submundo não os oprimissem com ele.”
Nota: A palavra rendida como “governar” pela maioria dos tradutores tem a conotação de opressão.
40. Judas disse a Yeshua: “Então o que farão aquelas gerações?” Yeshua disse: “Verdadeiramente, eu digo-vos todos, que para todos eles as estrelas trazem assuntos à conclusão (apocalipse celestial). Quando Saklas completar o espaço de tempo designado para ele, a primeira estrela deles aparecerá com as gerações, e eles terminarão o que disseram que fariam. Então eles terão sexo ilícito em meu nome e matarão (sacrificarão) os seus filhos e eles jejuarão, e eles matarão as suas mulheres em louvor oferecido em humildade uns com os outros; alguns têm sexo com outros homens; alguns assassinarão, alguns cometerão uma pletora de pecados e atos de crime, tudo em meu nome, e Saklas destruirá (ou destruará) a tua estrela sobre o décimo terceiro aeon.”
41. Depois disso Yeshua (riu).
Nota: Yeshua parece achar humor nos juízos ou conceitos equivocados dos discípulos. Ele ri, como que abanando a cabeça em descrença do erro, então tenta dar perceção e correção.
(Judas perguntou): “Rabi, (por que ris tu de nós)?” (Ele) respondeu (a Judas e disse): “Eu não estou rindo (por causa de vós), mas do erro das estrelas, porque estas seis estrelas vagueiam com estes cinco guerreiros e todos eles serão destruídos juntamente com as suas criações.”
Nota: As seis estrelas eram aquelas que, juntamente com Saklas ou yaldabaoth, criaram o homem e o cosmos. Os cinco guerreiros referem-se aos cinco planetas conhecidos no tempo da escrita do texto. Estes planetas também estavam ligados a adoração pagã e divindades.
42. Judas disse a Yeshua: “Olha para o que aqueles que foram batizados em teu nome fazem?” Yeshua disse: “Verdadeiramente eu digo (a ti), este batismo feito em meu nome (é feito por aqueles que não me conhecem. Eles sacrificam em vão ao deus deste mundo. Eu não batizei ninguém, porque aqueles batizados aqui têm a sua esperança aqui e aqueles que me seguem não precisam de batismo, porque eles virão) a mim. Em verdade (eu) digo-te, Judas, (aqueles que oferecem) sacrifícios a Saklas (não oferecem sacrifício ao Grande) Yahweh (mas em vez disso adoram) tudo o que é mau. “Mas tu excederás todos eles. Porque tu sacrificarás o homem (o corpo que veste / desnuda / contém-me).”
Nota: A teologia gnóstica estabelece uma dualidade entre o mundo material e o mundo espiritual. Visto que o deus que criou o mundo material era falho, cruel e insano, tudo o que foi produzido nesse ambiente deve ser corrupto e oposto ao mundo espiritual. Neste sistema de crenças, a morte do corpo de Yeshua era uma coisa boa, visto que libertaria o seu espírito e uni-lo-ia ao “Grande”. Olhado deste ângulo, Judas estava assistindo Yeshua em mostrar à humanidade o caminho. Esta linha de raciocínio deve ser tomada como metafórica. Alguns autores sugeriram que Yeshua se tinha tornado sepultado no seu corpo e estava pedindo a Judas que O libertasse. Isto não pode ser assim, visto que Yeshua vem e vai da Raça ou Geração Santa acima à vontade. Nem está Yeshua advogando suicídio em massa. Os Gnósticos viviam vidas longas e propagavam a sua fé. A mensagem aqui é que, permanecer desligado do material ou corpóreo e esforçar-se para receber o conhecimento aqui, libertar-te-á na vida futura.
Já o teu chifre foi levantado, a tua ira foi acesa, a tua estrela brilhou fortemente, e o teu coração (prevaleceu / foi feito forte / puro).
Nota: O símbolo chifre é um símbolo fálico, mas também um símbolo de força, de modo muito como o chifre de um rinoceronte é um sinal de poder e força.
Nota: Embora as linhas adicionadas à primeira metade deste versículo sejam ténues, a informação que está disponível estabelece o lugar de Judas segundo esta história. Ela, contudo, abre algumas questões. Contra o que foi dirigida a ira de Judas? Foi a ira de Judas a sua força motivadora? Estava ele irado com a religião estabelecida do dia? Foi a sua ira que pode indicar que Judas queria apressar o reino de Yeshua para que ele tivesse um lugar de autoridade nele. Se assim for, harmoniza-se bem com certas leituras dos evangelhos canónicos, que podem indicar que Judas queria apressar o reino de Yeshua para que ele tivesse um lugar de autoridade nele.
43. “(Verdadeiramente eu digo-te), o teu último (ato tornar-se-á aquilo que libertará esta raça, mas ele) entristecerá (a ti e enfurecerá esta geração) e o governante, visto que ele será destruído. (E então a) imagem da grande raça de Adão será levantada alto, porque antes do céu, da terra e dos anjos, essa raça dos reinos eternos, existe (existiu). Olha, tudo te foi dito. Levanta os teus olhos e olha para a nuvem e a luz dentro dela e as estrelas ao redor dela. A estrela que conduz o caminho é a tua estrela (tu és a estrela).”
44. Então, Judas levantou os seus olhos e viu a nuvem radiante, e entrou nela. Aqueles que estavam de pé abaixo dele ouviram uma voz vindo da nuvem, dizendo: “(O regresso da) grande raça (está próximo e a imagem do Grande será estabelecida neles por causa do sacrifício de Judas).”
Nota: Esta é a mesma nuvem mencionada no versículo 24. Ao entrar na nuvem, Judas tornou-se um com a causalidade primal ou “Grande / Supremo Yahweh”. A Gnose foi-lhe impartida e ele conheceu os mistérios. Ele então teve entendimento e força para fazer o que ele estava prestes a fazer. Isto equivale a uma transfiguração para Judas, muito como a de Yeshua. Da mesma maneira, uma voz do céu anunciou o seu destino.
45. (Mas os escribas esperaram por Judas, esperando colocar um preço na cabeça de Yeshua.) Os seus sumos sacerdotes sussurraram que ele tinha ido à sala de hóspedes para a sua oração. Mas alguns escribas estavam ali observando de perto a fim de prender Yeshua durante a oração, porque eles tinham medo do povo, visto que ele era aceite por todos como um profeta. Eles aproximaram-se de Judas e disseram-lhe: “Por que estás tu aqui? Tu és discípulo de Yeshua.” Judas respondeu-lhes da maneira que eles desejaram. E foi-lhe dada uma quantia de dinheiro e ele entregou Yeshua a eles.
Nota: Nós lemos da entrada de Judas na nuvem radiante e então da sua transação com os escribas, mas não há transição. É possível que a nuvem seja uma metáfora para conhecimento divino da causalidade primal ou Grande Yahweh que produziu Barbelo. Ver versículo 28.
Nota: A traição real de Yeshua por Judas é drasticamente minimizada. Apenas um parágrafo é devotado ao ato real. Dentro deste único parágrafo, nenhum detalhe é oferecido. O evangelho é construído para dar a razão para a traição. Construir a racionalidade do ato torna-se muito mais importante do que o próprio ato, dado o facto de que foi o corpo que vestia Yeshua que foi destruído e não o espírito interior. Despir o corpo cumpriu o destino e libertou o espírito do Messias. Isto foi feito como uma demonstração da crença de Yeshua no reino imortal e eterno, que estava além dos sentidos humanos. A lição do Evangelho de Judas e do Gnosticismo em geral tinha a ver com alcançar dentro para ganhar conhecimento do mundo espiritual não visto. A igreja ortodoxa ensinava que apenas através do martírio ou da bênção da igreja se podia passar para o reino espiritual. Yeshua estava ensinando outro caminho. A morte dele era a única maneira de exemplificar a sua fé e mostrar aos seus discípulos que havia mais do que eles podiam ver no mundo material. Segundo os textos gnósticos, a morte de Yeshua não trouxe salvação. A sua vida e morte ensinaram e forneceram conhecimento, que, se entendido, libertaria a raça humana das suas cadeias e permitir-lhe-ia subir ao reino imortal.
Isto termina o Evangelho de Judas.