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As Cartas de Pôncio Pilatos

O Testamento do Servo de Yahweh — Segunda parte • Pilatos e os seus correspondentes

Conservado na íntegra: volume por autor da coleção.

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CARTAS DE PÔNCIO PILATOS Escritas durante o seu governo da Judeia ao seu amigo Sêneca em Roma A CAMINHO DA JUDEIA A bordo, ao largo de Alexandria Estamos finalmente à vista de Alexandria, meu caro Sêneca, e amanhã desembarcamos. Passarei uma semana a conhecer o meu pessoal, a entrevistar candidatos a empregos (cardumes de gregos, é claro), a receber deputações de judeus leais e a falar com todos os que me possam ser úteis. Depois seguirei para Cesareia, que, como sabes, é o meu quartel-general.

Aqui em Alexandria devo encontrar-me com Valério Grato, o meu predecessor como Procurador da Judeia, e se alguém pode dizer-me como resolver o enigma de me dar bem com os judeus, ele deve ser esse homem. Não que eu não me vá dar bem com eles; tenciono fazê-lo, e creio que o conseguirei. Valério aguentou-os, ou eles o aguentaram, como dirias tu? — por mais de dez anos, portanto pode fazer-se, embora mais ninguém o tenha feito. (Valério Grato foi Procurador da Judeia de 14 a 26 d.C.) Por acaso, tive a sorte de contratar dois antigos membros do pessoal de Valério para mim. Um é Márcio Rufo, o seu chefe militar e agora o meu, que estava de licença e viaja de regresso comigo. O outro é ainda mais importante. É o seu Secretário Alexandre. É judeu, mas um daqueles judeus meio gregos ao serviço de um mero governador romano. Não se pode passar sem eles. Parece que não se consegue que um judeu verdadeiramente judeu ponha grego na superfície, e se se conseguisse pouco melhor se ficaria, porque ele não teria as línguas. E as línguas são necessárias, asseguro-te. Há um tipo de hebraico para os seus escritos sagrados, há o aramaico que falam comummente, há o dos não-judeus e para todas as pessoas instruídas, judeus ou não, e há o latim para o Procurador romano e o seu pessoal (se não preferirem usar o grego. Alexandre fala-as todas, Alexandre sabe tudo; dizem-me que a única pessoa nesta parte do mundo mais astuta do que Alexandre é um judeu de educação grega. Felicita-me, portanto, pelo meu Alexandre. Confio nele para me dizer o que não sei sobre a minha província da Judeia — que é quase tudo. Há duas pessoas que não devo ofender a preço nenhum, como vês: César Imperador (que os deuses preservem) e o meu judeu Alexandre. (O Imperador Tibério, que reinou de 14 a 36 d.C.) Márcio, por outro lado, é um romano dos romanos. Despreza todos os estrangeiros, especialmente os judeus. Sabe como eles são inferiores a si próprios. Eu dizia-lhe que ele prometera receber as saudações dos judeus leais em Alexandria. «Impossível!», disse ele. «Não há nenhum.» No outro dia, quando o mar estava agitado, uma onda passou por cima e atingiu-me nas costas, derrubando-me. Quando recuperei o fôlego, disse: «Um golpe traiçoeiro!» «Estamos a caminho da Judeia», disse Márcio. Prócula (a mulher de Pilatos) está preocupada por passarmos uma semana em Alexandria. Diz que não terá tempo de fazer as compras necessárias. A minha opinião é que, desse ponto de vista, uma semana é demasiado longa. Mas é realmente ridículo que o Tesouro não conceda um «subsídio de instalação» especial ou algo desse género. Sabes que terei de manter o palácio de Herodes em Cesareia e outro que ele construiu para si em Jerusalém, e depois há ainda um terceiro do mesmo género em Samaria. Como diabo há um homem pobre de manter estes lugares enormes? Para Herodes era muito simples. Era um dos homens mais ricos do mundo e a Judeia era uma pequena parte do seu reino. Valério estará à minha espera aqui com os seus «pertences» privados nestes palácios e há uma bela conta para eu pagar. Além disso, ele há de levar consigo muitas coisas, e eu terei de as substituir. Portanto podes imaginar Prócula a passar uma semana feliz entre o que ela declara serem as melhores lojas do Império — muito melhores, diz ela, do que as de Roma. Tu próprio vês como todo o assunto foi mal gerido por Roma. Quando decidimos que devíamos assumir o governo da Judeia por causa da insubordinação dos judeus, devíamos ter anexado todo o país que Herodes governou, desde perto de Damasco até ao Mar Morto, e não ter deixado os seus dois filhos na posse de grandes partes dele. (Nota: Quando Herodes, o Grande, morreu em 4 a.C., os Romanos dividiram o seu território entre os seus filhos Arquelau, Antipas e Filipe, ficando a Judeia para Arquelau. Em 6 d.C., porém, depuseram Arquelau e colocaram a Judeia nas mãos de um Procurador romano, mas deixaram os outros territórios ainda nas mãos de Antipas e Filipe.) É um imposto injusto sobre o Procurador da Judeia, que tem de manter o estado de Herodes com uma fração do seu rendimento. Bem, alguém terá de encontrar o dinheiro, e não há ninguém para isso senão os judeus. Um Procurador romano não deve estar pior alojado do que um rei semibárbaro como o Herodes deles, pois não? Digo a Prócula que, se quer tapetes e tapeçarias, deve esperar até ter acabado com Antioquia, mas ela apenas sorri; para uma mulher, um tapete na mão vale dois no deserto, em qualquer dia. Repito, os judeus terão de pagar. Afinal, é um encargo razoável para lhes impor e eles podem pagá-lo. Os judeus de todo o mundo — e estão por todo o mundo, não se consegue fugir deles em parte nenhuma — estão sempre a enviar dinheiro para Jerusalém. (Nota: Pilatos talvez se referisse ao tributo do Templo que todos os judeus enviavam a Jerusalém cada ano. Os Governadores romanos nas províncias ressentiam-se destas contribuições para o governo central em Roma apoiarem os judeus no seu envio.) Ficarias espantado com os navios que vejo diante de mim enquanto escrevo — uma perfeita floresta de mastros. Não pensei que houvesse tantos navios a flutuar. Não admira que os alexandrinos digam que a sua cidade é o maior centro comercial do mundo. O Capitão acaba de me indicar uma frota inteira de grandes navios num dos lados do porto — uma bela frota que transporta cereais para o nosso povo em Itália. Ele diz-me que o comércio de cereais está nas mãos de — quem pensas tu? — é claro, dos judeus. Também me confidenciou que gostava mais dos judeus fora da Judeia do que dentro dela. Hei de ver. Em todo o caso, alegro-me porque, embora pudesse facilmente ter tido uma província mais importante, quando estiver na Judeia serei governador, coletor-chefe de impostos e comandante-em-chefe, tudo numa só pessoa. Escreverei novamente antes de partirmos para Cesareia. POLÍTICA PARA COM OS JUDEUS Alexandria Encontrei a tua carta à minha espera quando desembarquei e apresso-me a agradecer-ta. Considero-me feliz por tu, que estás tão ocupado e a fazer um nome tão brilhante nos tribunais, teres tido a inclinação e o tempo de me escrever uma longa carta de bons votos e conselhos. Foi também astuto da tua parte, meu amigo: «Pilatos», disseste para contigo, «o impulsivo, teimoso Pilatos, não poderá argumentar comigo; terá de levar os meus avisos consigo de Alexandria e ruminá-los durante todo o caminho até Cesareia.» Farei isso, prometo-te, e sempre que o fizer hei de admirar-me outra vez de que alguém tão jovem como tu seja tão sábio. (Nota: Sêneca tinha cerca de trinta anos de idade nesta altura.) Afortunado é o Estado que pode orgulhar-se não só de Césares mas de Sênecas para os servir, e acompanharei o teu progresso com afetuoso

interesse, do meu exílio entre os selvagens. «O quê», dirás tu, «selvagens!» Então foi só isto que a minha carta conseguiu, é nesse espírito que assumes a tua tarefa? Os judeus não são selvagens.» Não, não são: falo apenas para te provocar. Os judeus são altamente civilizados. São inteligentes e subtis, industriosos e tenazes; podem dividir um cabelo com os mais eruditos e levar a melhor sobre os mais astutos. Não precisas de ter medo; não os subestimarei. Mas, dizes tu, acautela-te com a religião deles, porque nesse assunto são os mais sensíveis, os mais prontos a ofender-se, os mais indomáveis na resistência, de todos os povos desta terra. E acrescentas, levantando um dedo de aviso: «Sabes o que César deseja!» Eu sei. Nada de comoções, nada de rebeliões, impostos devidamente pagos: é isso que César deseja. Contudo, não pretenderás que César ame os judeus, pelo menos em Roma. Precisamente, diz o sábio Sêneca: em Roma César não ama os judeus mais do que ama os egípcios. Eles não se misturam, são uma raça à parte, não fazem sacrifício aos Deuses nem a César, e reclamam toda a espécie de privilégios. César não quer tal gente em Roma, embora afluam para lá cada vez mais. Devem estar, então, na sua própria Judeia, e na sua própria Judeia — que os deixem em paz! Não é essa a instrução? Não guardei bem a tua carta no coração? Crê-me, não interferirei com a religião deles, com os seus sacerdotes nem com o seu Templo. Mas ouvi dizer — e tu, que sabes tanto, não ouviste também? — que num judeu a religião anda muito perto da política? Que deve fazer, pergunto, um Governador romano quando a religião se torna política? Ouvi dizer que alguns deles não reconhecerão nenhum governante exceto o seu Yahweh, nem mesmo César. Nem mesmo César, repara bem! Que se acautelem. Penso que César ficará muito desagradado com servidores que não se preocupam em assegurar o respeito pela sua autoridade. Na religião, os judeus podem seguir o seu próprio caminho. Na política, seguirão o meu caminho, o caminho romano, ou hei de saber a razão por que não. Amanhã encontro-me com Valério de manhã, e à tarde com uma deputação de judeus alexandrinos, que desejam prestar-me as suas respeitosas homenagens e (assim diz a carta deles) fazer-me representações sobre o alívio dos encargos sobre os seus compatriotas na Judeia. Esperar-se-á de mim, suponho, que mostre quanto melhor homem sou do que Valério, reduzindo os impostos. A campanha das compras já está em pleno curso.

ENCONTRO COM O SEU PREDECESSOR VALÉRIO Alexandria O meu tempo tem estado tão completamente ocupado que só agora consigo escrever-te, e partimos para Cesareia dentro de poucas horas. A cada poucos minutos há alguma interrupção; mas escreverei esta carta ainda que perca o navio. Há uma coisa de grande importância, que devo dizer já, não vá esquecer-me; os judeus podem esperar. Disseste-me, talvez te lembres, de uma nova lavagem que tinhas concebido para as tuas plantas de vinha — mais eficaz contra as pragas do que qualquer outra conhecida por ti — e atribuíste-lhe a generosa colheita que tiveste no ano passado. Disse ao meu liberto Leão, que gere a minha quinta em Laurentum, que te escreva a pedir os pormenores, e ficar-te-ei grato se lhos deres. Ele é engenhoso em todas essas experiências e não omite detalhe nenhum; podes estar certo de que não terás o aborrecimento de descobrir que quem não tem nem o talento nem a vontade de tirar o melhor partido dela procurou o teu conselho. Vi Valério — um homem de rosto corado e jovial, encantado com a perspetiva de regressar a casa. Eu queria perguntar sobre a Judeia, mas ele mal falava de outra coisa senão de Roma e de corridas de carros, pelas quais tem uma paixão. Contudo, disse-me o suficiente sobre o mobiliário dos palácios de Herodes para deixar claro que os meus piores receios são verdadeiros. Diz que, quando César o depôs, Arquelau vendeu o conteúdo dos palácios como sendo sua propriedade privada, e que, consequentemente, cada governador desde então teve de mobilar de novo ou comprar os «pertences» do seu predecessor. «Como posso pagar tanto», disse eu, «no início do meu mandato?» «Pede o dinheiro emprestado aos judeus», disse Valério, «e depois aumenta os impostos deles para o devolveres.» «Mas», respondi eu, «estou prestes a informar uma deputação judaica de que, por respeito e admiração pela sua raça, tenciono graciosamente perdoar uma décima parte dos impostos.» «Porque não?», disse Valério. «Eu próprio fiz o mesmo. Mas em seis meses deves repor os dez por cento e em doze meses pôr outra décima sobre isso.» Disse-me também que devia, por todos os meios, encorajar os judeus que afluem a Jerusalém vindos da Ásia e de África na época das grandes festas, especialmente a Páscoa. Enquanto César mantiver a paz nas províncias, os judeus prosperam. Viajam às dezenas de milhar para a Judeia, levando o seu dinheiro consigo. «Então é a tua oportunidade», disse ele. «Fá-los pagar um imposto de visitante quando entrarem, aumenta os direitos aduaneiros sobre tudo o que é comprado e vendido enquanto lá estiverem, e põe um imposto especialmente pesado sobre todas as recordações que levarem quando regressarem. Eles resmungarão, mas, como estão a partir para outras províncias, isso não te deve preocupar, e os judeus na Judeia, tendo ajudado a espremê-los até ao fim, não terão mais interesse neles.» Gosto de Valério. Ele sabe o que é útil, e é prático.

Eu tencionava descrever-te a deputação judaica, mas isso terá de esperar. Terei mais tempo livre para o fazer adequadamente a caminho de Cesareia. Podes pensar em mim, durante a viagem, a ter lições sobre a Judeia com Alexandre. Que espécie de homem é ele, perguntas tu. Conheces o tipo de judeu agressivo, insistente, barulhento? Ele é o outro tipo. É calmo, deferente, muitas vezes obsequioso — e, a não ser que eu esteja enganado, tão profundamente desdenhoso de ti, de mim, de Roma e de César como o mais barulhento deles todos. Neste momento, Alexandre está envolvido num flerte vivo com Acme, a escrava grega de Prócula, uma rapariga bonita. Sucedeu a Márcio. Um judeu não casa com uma não-judia, creio eu, mas fora do casamento não são esquisitos. INSTRUÇÃO DE VALÉRIO A bordo: a caminho de Cesareia O mar está apenas encrespado e não me devo queixar, mas fico contente por ser uma viagem curta comparada com a da Itália. Eu tencionava contar-te o que Valério me disse sobre a Galileia. Como sabes, tanto a Galileia como a Pereia, que fica a leste de Jerusalém, no outro lado do rio Jordão, são possessões de Antipas, filho do Herodes que, ao virar o casaco habilmente durante as nossas guerras civis, não só conservou o seu reino como continuou a acrescentar-lhe território. Queixei-me a Valério de que esses territórios deviam estar sob o Governador da Judeia,

especialmente a Galileia. O senso comum exige-o. A Galileia é judaica, é florescente e rica, e Jerusalém é a sua capital nacional e histórica. Os seus habitantes olham para Jerusalém como a sua cidade sagrada e estão sempre a viajar para ela. Alguém em seu perfeito juízo sonharia em retalhar um país em tiras dessa maneira, e porque havemos de o tolerar só porque Herodes tinha três filhos para quem queria prover? Valério concordou comigo imediatamente. «Há mais nisso também», disse ele, «como poderás em breve descobrir. Os galileus, como todos os judeus, odeiam os romanos, e são tão independentes e obstinados quanto se pode ser. Mas quando querem arranjar problemas, saem da Galileia, onde nada podem mudar e nada podem conseguir, e vão fazê-los na Judeia, ou seja, em Jerusalém. A última revolta séria foi há cerca de vinte anos, quando assumimos o país. O problema foi levantado por um patife chamado Judas, que pertencia à Galileia. Aquilo foi uma verdadeira rebelião. Ao infeliz Procurador da Judeia César não permite rebelião nenhuma; ao mesmo tempo, está impedido de lidar com os começos de sedições na Galileia, mesmo que os conheça, porque é o reino de Antipas e ele não deve interferir.» «Então devíamos», disse eu, «livrar-nos de Antipas.» Valério sorriu. «Estou à espera há dez anos», disse ele, «e ele nunca me deu um pretexto.» (Nota: Judas de Gamala liderou uma revolta na época em que Herodes morreu, em 4 a.C. Tentou de novo em 6-7 d.C., quando os Romanos impuseram a tributação. Foi do partido de Judas e de Zadoque, um fariseu, que surgiram os «Zelotas». Os Zelotas foram assim chamados por causa do fogo e do ódio fervoroso que sentiam para com Roma. Foi esse ódio descontrolado que levou à revolta fatal contra os Romanos.) Podes dar por certo que Antipas não permitirá que uma sedição comece na Galileia se o puder evitar, porque sabe que os Romanos podem aproveitar a oportunidade para absorver o seu reino na Judeia. Ele mantém boas relações com o Governador romano da Síria e tem amigos em Roma. Como o seu velho pai vilão, lisonjeia os judeus observando os seus costumes e conserva-se no poder fazendo a corte aos Romanos. Todos os Herodes são iguais. Sabem que, se não fossem os Romanos, os judeus os expulsariam num instante, pois os judeus amam-nos pouco, embora amem os romanos ainda menos.» Perguntei a Valério se todos os judeus detestam os romanos por igual, como tinha ele conseguido manter as coisas calmas durante dez anos. «É bem verdade», disse ele, «que todos nos odeiam. Mal há um deles que falasse connosco, e muito menos comesse connosco, se pudesse evitá-lo, mas não nos odeiam todos no mesmo grau. Há alguns deles em Jerusalém que prefeririam suportar os romanos a perder o poder e a posição que detêm. As suas famílias sacerdotais nobres — um grupo tão arrogante como se pode encontrar na Ásia — governavam todo o país antes do tempo de Herodes. Herodes destruiu o seu poder e quase os destruiu a eles. Agora levantaram outra vez a cabeça. Devolvemos-lhes grande parte da sua autoridade, especialmente no que toca à sua religião, e, para a conservar, estão prontos a tolerar-nos. Não querem outro Herodes que os varra para o lado e os envie ao carrasco. Nem gostam de sedição, a não ser que fosse provável que tivesse sucesso, porque conhecem o poder de Roma. Não têm utilidade para um Judas, venha ele da Galileia ou de qualquer outro lugar, que, ao levantar uma revolta popular, possa levá-los a um conflito com Roma e pôr fim aos seus privilégios. Fazem um acordo com Roma. “Odeiamo-vos e desprezamo-vos”, dizem eles, “mas em certos termos podemos ajudar-vos. Deixem-nos em paz e manteremos o país calmo para vós.”» Vês, meu amigo, como estou a aprender depressa. Devo trabalhar com estes sacerdotes em Jerusalém e procurar uma oportunidade, que não é provável que venha a ter, de fazer tropeçar Antipas. Entre ti, Valério e o Secretário Alexandre, em breve serei um estadista. Mesmo assim, pressionarei por um aumento da guarnição da Judeia. Quatro mil homens não chegam. Quando tiver oportunidade, direi que preciso de mais tropas para vigiar as fronteiras da Galileia e da Pereia. Afinal não te contei sobre a deputação, mas escreverei novamente antes de desembarcarmos em Cesareia. UMA DEPUTAÇÃO JUDAICA EM ALEXANDRIA A bordo, perto de Cesareia Agora finalmente posso descrever a deputação judaica. Foi um assunto maior do que eu esperava, mas os judeus em Alexandria são muito mais importantes do que eu supusera. Há um bairro judeu que, dizem, ocupa quase metade da cidade; sei que, na véspera do dia em que a deputação veio, conduzi e conduzi, e o povo, os cartazes e as tabuletas das lojas eram sempre judeus. Crianças por toda a parte e por toda a parte velhos de barbas cinzentas, graves e a falar com animação na rua. Nunca vi tantos velhos. Será que eles alguma vez morrem, pergunto-me? Ou será apenas que os reparamos mais porque são tão diferentes? Tornara-se conhecido que eu tencionava receber alguns dos seus principais homens e havia uma grande multidão na praça diante do palácio do Prefeito da Cidade, Júnio Macrino, em casa de quem eu estava hospedado. Devias ter ouvido o alvoroço quando a deputação apareceu. Os judeus, que lá estavam em força, deram aos seus compatriotas uma acolhida entusiasmada, suponho que porque iam admoestar o futuro opressor da Judeia. Isso provocou a turba, que era na maioria grega, e começaram a assobiar, depois a acotovelar os judeus e finalmente a atirar pedras. Os judeus resistiram e pensei que haveria um motim. Contudo, Júnio, que está habituado a este tipo de coisas e se divertiu com o facto de eu o levar tão a sério, tinha uma companhia de tropas de prontidão e elas depressa levaram a deputação para dentro e limparam a praça. Tudo correu como um relógio. Dois homens, que creio serem gregos, foram mortos. Mal acreditarias como os judeus são detestados nesta parte do mundo. A multidão chamava-lhes «suínos», «ladrões» e «bebedores de sangue». Em parte é porque são arrogantes e exclusivos, mas os gregos não lhes perdoam o facto de os vencerem no comércio. Há um ditado em Alexandria: «um egípcio poderia ganhar dinheiro com uma pirâmide, um grego com uma pedra, e um judeu com um grão de areia.» (Nota: Aparentemente, «bebedores de sangue» é uma alusão aos rumores de assassinato ritual judeu e de sacrifício de crianças espalhados pelos seus inimigos desde tempos muito antigos.) Alexandre, o secretário, preparara-me para a deputação. Insuflou que podia escrever o meu discurso, mas eu tenciono fazer os meus próprios discursos. «A deputação», disse ele, «será importante: como sinal de respeito pelo novo Procurador, será chefiada por Filo e Alexandre.» Ele parecia esperar que eu dissesse alguma coisa. «Ah, sim», disse eu, «Filo e Alexandre. Devo lembrar-me dos nomes deles.» Júnio ficou encantado. «Não acredito que alguma vez tenhas ouvido falar de nenhum deles», disse ele. O secretário prosseguiu, imperturbável. «Filo tem certa reputação como filósofo.» «Ora», disse Júnio, «ele é o maior judeu vivo. Chamam-lhe “o Platão judeu”, o que enfurece os gregos. Nunca li uma palavra dele, mas creio que se propôs provar que as Escrituras Hebraicas contêm toda a filosofia grega.»

«Alexandre», acrescentou o secretário, «é irmão de Filo, e é o líder dos judeus no comércio e nas finanças, como Filo o é nas letras.» Júnio acrescentou que Alexandre era o chefe reconhecido da comunidade judaica, enormemente rico e pronto a emprestar dinheiro com boas garantias. Eu próprio pensei que devia tomar nota de Alexandre. Filo e Alexandre foram, de facto, os porta-vozes do grupo. Fui breve e militar. «Tendes, ao que ouço, um pedido a fazer-me», foi tudo o que disse quando Júnio mos apresentou. Ele começou com cumprimentos a Roma, a César e a mim. Disse que os judeus tinham falado em voz baixa mas, escusado será dizer, com completa segurança, como de iguais para iguais. Falou primeiro Filo, visto que devia tratar da religião. Começou com cumprimentos a Roma, a César e a mim. Disse que os judeus sempre tinham lutado arduamente pela sua independência, mas nunca por muito tempo tinham conseguido preservá-la. Sempre alguma grande Potência do norte ou do sul os vencera: o Egito, a Assíria, os gregos, os sírios deram-lhes paz e finalmente Roma. Hoje em dia, não só reconheciam que não podiam esperar prevalecer contra o poder de César, como já não o desejavam, pois César reinara — um pregador itinerante ou um chamado patriota ou um mero bandido — e ele sempre acabava por convidar os governantes em Jerusalém, apoiados no exercício da sua religião, e neste governo. Interrompi para dizer que havia queixas constantes do povo contra Roma. Filo replicou que era melhor e mais instruído entre homens ignorantes e iletrados que contavam pouco, e que os governantes em Jerusalém, apoiados no exercício da sua religião, e nisto os judeus, estavam satisfeitos por ter as coisas como estavam, desde que fossem deixados imperturbados no exercício da sua religião, e por isto os judeus lutariam até à morte. Continuaram a avisar-me, com profissões de respeito, de que na Judeia os judeus não tolerariam a introdução de nenhuma imagem esculpida — nem mesmo a do imperador — no Templo; e imploraram-me que não introduzisse as águias — que não reduzisse nem um jota nem um til das suas convicções religiosas. Disseram, disse ele, que já suportaram o extremo da perseguição antes e, se fosse preciso, voltariam a fazê-lo. Antíoco da Síria torturara-os e matara-os aos milhares, na sua determinação de lhes impor costumes pagãos e de os tornar gregos em vez de judeus, mas no fim eles tinham-no derrotado. Herodes procurara quebrá-los com a magnificência e a opulência dos seus dons e subornos e construindo-lhes um Templo, que se dizia ser a maravilha do mundo, mas quando pôs uma águia de ouro sobre a Porta do Templo eles deitaram-na abaixo, pois nem a cruz nem a estaca tinham terrores para o judeu temente a Yahweh. (Nota: Antíoco Epifânio (175-164 a.C.) procurou destruir a religião judaica e «helenizar» os judeus. A revolta bem-sucedida liderada por Judas Macabeu marcou o fracasso da sua política. Antíoco dedicou o Templo de Jerusalém a Zeus Olímpio e erigiu nele o altar pagão que é a «abominação da desolação» de que se fala no Livro de Daniel. A águia colocada sobre a entrada era um símbolo da nação romana e da sua propriedade do templo.) Embora dissesse que o julgava desnecessário, lembrou-me que os judeus, adorando um Yahweh invisível, não aceitariam estátua nem imagem alguma de seres vivos, e que nem mesmo Herodes colocara a sua cabeça nas suas próprias moedas na Judeia. (Nota: A política de Herodes, o Grande, para com os judeus foi de brandura misturada com suspeita e desprezo. Ele não procurou, como Antíoco, «helenizá-los». Ao mesmo tempo, para os gratificar, restaurou o Templo na maior escala, mas também estabeleceu um anfiteatro em Jerusalém, cujo caráter pagão era uma ofensa constante para eles.) Perguntei-lhe sem rodeios se propunha que a cabeça de César não fosse colocada nas suas próprias moedas dentro dos seus próprios domínios; mas ele era demasiado astuto para cair na armadilha da pergunta; esperava apenas, disse, que eu respeitasse os sentimentos dos judeus na antiga pátria da sua raça e da sua religião, tal como o próprio César desejava que fossem respeitados. Perguntei-lhe se sabia que em Roma César ordenara que os judeus abandonassem as suas formas especiais de culto, sob pena de serem expulsos da Itália ou forçados a entrar nos batalhões de trabalho do exército. (Nota: O Imperador Tibério impusera esta medida sete anos antes — em 19 d.C.) Ele respondeu que sabia que assim era, mas que, enquanto César não toleraria uma raça distinta com privilégios especiais exclusivos em Roma, era igualmente firme em lhes permitir o gozo imperturbado dos seus costumes religiosos na sua própria pátria. Acrescentou, com intenção, que todos sabiam ser essa a política estabelecida por César para os seus governadores, e que lhe eram gratos por isso, tanto a ele como a eles. Terminou com um pedido: as instruções que me foram dadas em Roma antes de eu partir. Valério também sublinhara isto. Informou-me de que em Jerusalém o Governador romano guarda as vestes do Sumo Sacerdote sob a sua custódia. Só lhas entrega ao Sumo Sacerdote na véspera das grandes festas e recebe-as de volta quando a festa termina. É um sinal de autoridade a que Roma atribui grande importância. Os judeus, é claro, ressentem-se disso. Filo propôs que, uma vez que a Judeia se comportara tão bem durante o mandato de Valério, eu devolvesse as vestes ao Sumo Sacerdote. Respondi friamente que os judeus deviam merecer qualquer concessão pelo bom comportamento que me mostrassem, que eu conhecia a mente de César e a executaria, e que tinha toda a intenção de permitir aos judeus o pleno exercício da sua religião, desde que reconhecessem de todas as maneiras próprias a autoridade de César. A questão das vestes, disse eu, era uma questão que só César podia decidir. (Nota: Herodes, o Grande, guardara as vestes sob a sua própria custódia e os Romanos continuaram a prática. Quando Pilatos foi chamado a Roma em 36 d.C. para responder às acusações de má governação que lhe eram feitas, as vestes foram devolvidas ao encargo dos sacerdotes no Templo.) Espero que aproves esta declaração branda e cautelosa. A religião é uma coisa; por todos os meios, que tenham a sua religião. Mas quando dizem que os seus escrúpulos religiosos os proíbem de tolerar os símbolos da autoridade de Roma — uma estátua, uma imagem ou até uma inscrição — isso já é outra coisa. Hei de ver isso. Não penso que César me culpe por fazer cumprir a sua autoridade. Pensei que Filo nunca mais parava. O seu irmão, Alexandre, fico contente por dizê-lo, foi mais breve. Estava cheio da pobreza dos judeus. Disse que havia uma impressão de que todos os judeus eram ricos, mas que era um grande erro. A Judeia era um país pobre, grande parte dele montanhoso e estéril. O território realmente rico era a Galileia. Eu sei isso, mas as pessoas pensavam que a Judeia era rica por causa das contribuições que os judeus de toda a parte enviavam a Jerusalém. Isso, porém, era «dinheiro do Templo», destinado a manter os serviços e os sacerdotes, e não podia ser tocado mais do que as joias oferecidas por benfeitores piedosos. Ele próprio, aliás, é um desses que adornam o próprio Templo. Instou-me a criar paz e contentamento no início do meu governo com uma grande remissão de impostos. Falou da minha referência a agitadores incómodos na Judeia e disse que a sua própria experiência como coletor de impostos no Egito era que, quanto menos as

pessoas fossem tributadas, menos provável seria que escutassem a sedição. Disse que consideraria o assunto. Não lhe podia dizer a verdade, pois não? A verdade é que um Governador nunca precisa de dinheiro tão urgentemente como no seu primeiro ano de mandato e que cada Governador tem uma fila interminável de credores em Roma. Se não fosse pelos seus credores, algum homem consentiria em governar judeus? Poderás dizer que este é um sentimento muito pouco refinado. É, mas nem sempre posso ser um Sêneca. E pensar na riqueza incalculável que flui de todas as cidades da Ásia e de África e de quase toda a Europa para Jerusalém, e não posso sequer tocar-lhe! Nem, asseguro-te, o tentarei. Em breve estaremos à vista de Cesareia. Prócula está cheia de entusiasmo com isso; mas ela não percebe por quantos anos poderá ter de viver lá. CHEGADA A CESAREIA No porto, Cesareia Felicita-me, meu amigo, pois cheguei à minha «província». Deseja-me um mandato calmo e sem acontecimentos, sem rebeliões, secas nem tumultos, para que eu possa merecer uma promoção e, num posto mais alto do que este, ajudar a fazer história. Deixei Prócula no convés. Está descontroladamente entusiasmada. Esperava, creio, encontrar tendas e selvagens, e aqui está uma cidade que, diz ela, parece quase tão boa como Nápoles. Certamente não há nada de judeu na sua aparência. A primeira coisa que vimos, a muitas milhas de distância, foi um templo de mármore branco e brilhante, no alto de uma colina. Depois o contorno de um grande anfiteatro, também branco. A seguir, à medida que nos aproximávamos, uma torre alta e escura, erguendo-se direita, ao que parecia, para fora da água. Descobrimos que estava assente na extremidade de um gigantesco quebra-mar (feito de enormes blocos de pedra. Não vi nada tão impressionante como este quebra-mar-porto) na Itália. Estende-se em forma de crescente, da extremidade sul da cidade em direção ao norte; é várias vezes mais largo do que qualquer das nossas estradas, com torres sobre ele e arcos sob os quais os marinheiros podem alojar-se. Projeta-se tanto em direção à costa norte que deixa apenas uma entrada estreita a partir do mar aberto, e dentro dele está o refúgio de águas calmas em que agora nos encontramos. O tamanho das pedras é quase inacreditável, e como Herodes conseguiu trazê-las para aqui, fazê-las talhar e colocá-las em posição é mais do que eu consigo compreender. Deve ter procurado engenheiros qualificados por toda a Ásia e África. Antes de Herodes construir o porto e o chamar pelo nome de César, o lugar era uma mera enseada, aberta e perigosa. Agora o comércio de todo o país vem para aqui, e muito vem para aqui que costumava ir para Tiro, mais a norte. Espero que venha ainda mais, para eu poder beneficiar dos direitos aduaneiros! Ao chegarmos à entrada, Márcio indicou-me primeiro um edifício e depois outro, e acrescentava sempre: «Herodes construiu-o — construiu-os todos.» Verdadeiramente ele era um homem maravilhoso, pois esta é apenas uma das cidades que ele criou do nada, e onde quer que construísse, nunca se esquecia de construir para a glória de César e de Roma. (O templo que vi primeiro é dedicado a César.) Enquanto eu observava e escutava Márcio, exclamei: «Um grande rei, não admira que César o tenha louvado!» (Nota: Dizia-se que o Imperador Augusto e o seu ministro Agripa tinham dito que «os domínios de Herodes eram demasiado pequenos para a grandeza da sua alma».) Fiquei espantado ao ouvir uma voz áspera perto de mim a dizer: «Um grande assassino!», e ali estava, se fizeres o favor, o meu humilde Alexandre, com uma carranca no rosto e um rosnado na voz, com o ar de quem odiava (como tenho a certeza de que odeia) até as pedras que Herodes erguera. «Ele próprio era judeu», disse eu, para arreliar Alexandre. Eu sabia que Herodes era apenas meio judeu, sendo da raça dos idumeus, e suponho que, se há pessoas que os judeus odeiam mais do que os romanos e gregos puros, são pessoas parcialmente judias, como os idumeus e os samaritanos. (Nota: Os idumeus, cujo país ficava a sul da Judeia, tinham sido derrotados em guerra e «judaizados» à força pelo governante judeu João Hircano I (135-105 a.C.).) «Ele não era judeu», disse Alexandre secamente. «E era o assassino mais vil que alguma vez saiu até da Idumeia.» «A quem assassinou ele?», perguntei. «Sei que executou rebeldes com alguma liberdade, mas espero que a maioria deles não merecesse menos. Queres dizer as execuções na sua própria família?» «Assassinatos!», disse Alexandre. (Ele é bastante pertinaz.) «Matou Hircano, o velho avô da sua mulher Mariamne, e depois o irmão dela. Matou a mãe dela, Alexandra. Matou a própria Mariamne e por isso, pela justiça de Yahweh, pois tinha uma paixão profunda por ela, sofreu as torturas dos condenados. Matou os seus próprios dois filhos de Mariamne e outro filho de outra mulher, que voltara a sua mente contra aqueles dois. Matou — e depois desenrolou uma longa lista. Não me consigo lembrar de todos — tenho tanto em que pensar — mas sei que entre eles estavam dois sucessivos maridos da própria irmã de Herodes, Salomé. Perguntei a Alexandre que motivo tinha Herodes. Seria mero prazer em matar? «Não», disse ele, «a família de Hircano era da linhagem principesca judaica e Herodes exterminou cada membro dela, para que não produzisse um rival para si.» «Em Roma chamam a isso arte de governar», disse eu, espero que não indiscretamente. (Nota: Aparentemente, uma alusão perigosa ao ciúme e à suspeita com que o Imperador Tibério encarava todos os possíveis pretendentes ao poder imperial.) Perguntei a Márcio qual era a sua opinião sobre Herodes. Estava pensativo. «Um grande príncipe», disse ele. «Tinha ideias largas sobre tudo. César Augusto tinha razão quando disse que Herodes era suficientemente grande para governar tanto a Síria como o Egito. Era o homem mais astuto com quem Roma teve de lidar nestas paragens. Sabia ser útil a Roma e também usá-la. Mas em casa era uma fera selvagem; vivia de sangue.» É bem verdade. (Matar) a sua própria mulher e os seus próprios filhos, isso requer alguma tolerância (para com o sangue.) As ruas estão decoradas em nossa honra, e podemos ouvir o ruído das multidões que se juntam para saudar o nosso cortejo. ENCONTRO COM CAIFÁS No Palácio de Herodes, Cesareia Estamos devidamente instalados e eu estou a trabalhar arduamente. Sento-me de manhã à noite, a estudar relatórios de todos os quadrantes da Judeia, a examinar contas, a ouvir petições. Creio realmente que durante os últimos doze meses Valério deve ter guardado todas as questões difíceis e

desagradáveis para eu resolver. Não há fim para as disputas entre gregos e judeus, samaritanos e judeus, idumeus e judeus, e judeus e judeus. Todas são descritas como importantes; há uma bela colheita de problemas para mim, decida eu como decidir. Suponho que farei o mesmo ao meu sucessor quando chegar a minha vez. A minha receção não foi cordial, embora muito mais cordial do que a dos judeus. Os judeus nas ruas estavam frios e sem reação. Márcio diz que Valério os governou tão brandamente que não veem razão para esperar muito de mim. «Serão mais entusiastas», acrescentou, «com o teu sucessor.» Quando cheguei ao palácio, encontrei os altos funcionários reunidos para me dar as boas-vindas, o meu próprio pessoal, representantes dos dois Herodes e o Sumo Sacerdote de Jerusalém. O Sumo Sacerdote é um tal José Caifás. É um homem alto, imponente na aparência, suave nas maneiras e, diria eu, de mente flexível. Observei que a sua mera presença causava uma grande impressão em todos. Houve muita discussão sobre se ele viria a Cesareia ou esperaria em Jerusalém até eu fazer a minha primeira visita lá. Se ele não tivesse vindo, eu tê-lo-ia certamente tomado em sentido negativo, pois teria sido um sinal claro de hostilidade. Por outro lado, ele veio sozinho. Há vários ex-Sumos Sacerdotes vivos, e nenhum veio com ele. Especialmente, nem Anás nem nenhum dos seus filhos lá estavam. Este Anás e os seus filhos, devo dizer-te, são a mais poderosa das famílias sacerdotais em Jerusalém. Durante anos, ou ocuparam os cargos mais altos ou tornaram difícil que qualquer outra pessoa os ocupasse. O velho Anás foi ele próprio Sumo Sacerdote quando Valério chegou aqui e Valério achou-o impossível; ele quer apenas a proteção de Roma para poder seguir o seu próprio caminho em tudo. Valério transferiu o cargo para um membro de outra família, mas a experiência foi um fracasso; depois nomeou um dos filhos de Anás, mas isso foi como devolver o cargo ao velho outra vez. Mais uma vez nomeou um sacerdote rival e mais uma vez o rival não era suficientemente forte. Por isso escolheu Caifás, que é genro de Anás, na esperança de que a multidão ambiciosa considerasse isso prestígio e influência suficientes para a família, e de que Caifás estivesse disposto e fosse capaz de se manter contra eles. Não é um mau arranjo, não achas? Caifás mantém a paz connosco e o cargo na família; Anás e os seus filhos ficam um pouco mais afastados e conservam o apoio daqueles que pensam que a última coisa que qualquer deles quer é um choque com Roma que destruiria o seu próprio poder. Caifás, na cerimónia pública, disse apenas: «Os judeus saúdam o representante de César.» Uma acolhida fria, mas depois, em privado, foi mais comunicativo e disse-me que considerava seu dever trabalhar com os Romanos. Disse que o seu povo, como esperava que eu soubesse, era apaixonadamente apegado à sua independência, mas que ele e as grandes famílias judaicas reconheciam que não podiam lutar contra Roma. Disse que a coisa que sempre temia era um levantamento popular, que ele e os seus amigos não pudessem controlar a tempo. «Este país», disse ele, «é muito difícil de governar. Está cheio de regiões montanhosas e desoladas nas quais pessoas mal-intencionadas ou ambiciosas não podem ser impedidas de se reunir e das quais podem sair para criar problemas nas cidades.» Houve, depois da morte de Herodes, vários casos de aventureiros que reuniram um grupo de pessoas em torno de si e se estabeleceram realmente como Rei. Um deles poderia ser um mero bandido; outro poderia ser um rebelde político contra qualquer tipo de domínio estrangeiro; um terceiro poderia presumir estabelecer uma lei sobre religião. Em qualquer caso, havia perigo. O povo comum era extremamente ignorante — divertiu-me ver o desprezo com que ele falava deles — e qualquer tipo de líder com um dom de ação ou de palavra significava para eles alguém que poderia restaurar as liberdades que outrora tinham desfrutado. Depois, disse ele calmamente, com um sorriso. Além disso, disse, falando muito baixinho: «tens de te lembrar que todos os judeus acreditam que, num dia distante, surgirá um libertador que restaurará as antigas glórias do nosso povo.» «Não pretendo compreender a religião deles, mas percebi que a vinda deste libertador (ele chamou-lhe Messias) seria incompatível com o governo de Roma, ou de qualquer outro poder. Devo perguntar a Alexandre sobre isto. A voz de Caifás era serena, quase casual, enquanto falava comigo. Presumo que ele e os seus amigos não apoiarão rivais, sejam Reis ou Messias, que ponham em perigo a sua autoridade sob o governador de César. Agradeci a Caifás e perguntei-lhe onde estava Anás. Ele respondeu que Anás estava constipado e que, em qualquer caso, raramente saía de casa. Apresentar-se-ia a mim em Jerusalém. Disse que Anás tinha vários filhos, um dos quais fora Sumo Sacerdote. Ele respondeu que não seria decoroso que eles viessem na ausência do pai. Imagino que o velho os ofusca completamente. (Nota: Eleazar foi nomeado por Valério Grato. Ao todo, cinco filhos de Anás, numa altura ou noutra, ocuparam o cargo de Sumo Sacerdote. O próprio Anás foi Sumo Sacerdote durante nove anos e Caifás durante onze.) Caifás e eu compreendemo-nos um ao outro, penso, mas terei de o vigiar. A posição é extraordinária. Quem dera que estivesses aqui para a estudar. Ao olhar do palácio, vejo abaixo de mim esta cidade que, à parte os judeus, está cheia de gregos, egípcios e o resto. Ao longe, a sul, há uma faixa de planície ao longo do mar. Atrás dela há contrafortes e depois, erguendo-se atrás deles, uma barreira de montanhas, nuas e escarpadas, entre as quais habitam os verdadeiros judeus, obstinados e inflexíveis. Estão cercados de inimigos — samaritanos a norte, idumeus a sul, romanos nos pontos de vantagem militar e gregos por toda a parte — e não desejam tê-los senão como inimigos. As próprias tropas, os auxiliares, com que os dominamos, são recrutadas entre esses inimigos no seu próprio solo, pois eles próprios não servem no exército e nós — erradamente, na minha opinião — os isentamos. Fecham-se na sua Jerusalém e, ainda mais, no seu Templo, imutáveis e, no fundo, inflexíveis. Não tive nenhuma carta tua, meu amigo, desde que cheguei aqui. Tem cuidado; não escreverei outra vez até ouvir de ti. OS PROBLEMAS DE UM GOVERNADOR Cesareia A tua carta chegou e estou-te grato por ela e pela tua oferta de serviço. Aventurar-me-ei a fazer uso de ti imediatamente e tu próprio me deste a dica. Dizes que as coisas não só estão calmas em Roma como demasiado calmas para algumas pessoas; que a turba se queixa de «César sovina» por não lhes dar esmolas e Jogos e espera que ele os trate mais generosamente quando regressar a Roma. Aprovas a política de César, e eu também; que fiquem sem os seus Jogos e façam algum trabalho honesto para variar. Mas eu não sou César e não posso permitir-me ter o meu povo a resmungar. Portanto, devo exibir Jogos e, e é por isso que peço a tua ajuda. (Nota: Neste ano, Tibério retirou-se para a ilha de Capreia, na Baía de Nápoles. Nunca regressou a Roma.)

Antes de mais, terei algumas lutas com feras selvagens. Gostaria de ter tido o tipo de competição que vi em Alexandria — uns touros contra um elefante, mas os elefantes custam demasiado para um Procurador. A exibição principal será meia dúzia de leões contra uma dúzia de prisioneiros idumeus armados com dardos. Podes ver imediatamente que será um assunto de táticas; se conseguirem separar os leões — mas aí está — sei que lutarás a cavalo contra os touros. Estes dardos leves, cada um, portanto as probabilidades estão do lado dos leões.) Alguns outros prisioneiros — estes são criminosos — entre partos de um lado e gauleses e britânicos do outro. Os carros estão aqui. Haverá seis para conduzir e seis para lutar, de modo que os que sobreviverem possam ser usados noutros Jogos por mim ou emprestados a amigos. Gostaria de comprá-los de vez, para que os sobreviventes nunca estejam realmente seguros na Gália até o fazermos. Mas, sei, a cautela está muito disposta a não ter senão britânicos, se houver tantos disponíveis. Há muito interesse aqui por aquela ilha, e todos perguntam porque é que César não entra e a acrescenta definitivamente às nossas possessões. Não o empreenderemos seriamente até 43 d.C., sob o Imperador Cláudio.) (Nota: Tibério, seguindo as máximas de Augusto, estava relutante em alargar as fronteiras do Império e a conquista da Britânia não foi seriamente empreendida até 43 d.C., sob o Imperador Cláudio.) Perguntei a Alexandre o que o Sumo Sacerdote queria dizer com a sua conversa sobre um libertador judeu ou Messias, e sei que tu, de todas as pessoas, vais querer ouvir a sua resposta. Como tudo neste país estranho, é uma questão mista de religião e política. Aparentemente, os judeus (uma Nota: Ele chama-lhe «Messias») restabelecer-se-ão na posição que ocupavam há centenas de anos, quando nem romanos nem gregos tinham chegado até eles. Mas, diz Alexandre, os seus homens instruídos e os seus governantes, como Caifás, são demasiado sensatos para pensar que isso pode ser feito nestes nossos tempos, e por isso adiam a vinda de um libertador para um futuro indefinido, ou até dizem que ela não é para este mundo, mas para outro que sucederá a este — uma visão muito sensata, dirás tu, e eu também. Mas o judeu comum, que compra e vende, ou cultiva, ou pesca, vê o futuro de modo diferente. Quanto mais é oprimido por bárbaros, como ele diria, como gregos ou sírios, egípcios ou romanos, mais anseia pela vinda de um libertador, uma espécie de Yahweh, enviado do seu céu para libertar os judeus; alguns deles pensam até que este libertador não só libertará a Judeia como conquistará todo o mundo. É por isso que Caifás me falou com significado: «nunca um patife se estabelece em qualquer parte destas paragens que eu não reúna em torno dele e não acredite na sua história de que foi enviado para ser o seu Rei.» O que fariam Caifás e Anás com isso? disse eu a Alexandre. Ele não mexeu um músculo. «É duvidoso», disse ele, «até que ponto o libertador precisaria dos serviços de um Sumo Sacerdote, mais do que de um Governador romano. Anás e Caifás acreditam sem dúvida que o libertador virá um dia. Devem acreditar não menos do que isso, mas serão muito lentos a admitir que ele realmente chegou; o povo comum acredita que ele pode vir mesmo agora e pode decidir a qualquer momento que ele chegou.» Não é uma ideia cómica que esta raça mesquinha e pequena, que foi invadida por meia dúzia de conquistadores, levada para a escravidão e espalhada pela terra, acredite que foi escolhida entre todas as outras e que o seu Yahweh, que nunca foi capaz de impedir os seus infortúnios, enviará alguém para derrubar César e Roma? Pensarias que, quando veem que mantemos aqui apenas 4,000 soldados, saberiam como são realmente fracos e desprezíveis, mas suspeito que, embora Caifás saiba melhor, muitos deles pensam honestamente que estes 4,000 são tudo o que Roma tem. Em qualquer caso, se se pode confiar num Yahweh para realizar toda a espécie de milagres, não importa quantos soldados estão do outro lado. Receio que um dia eles precisem de uma lição. Se tiveres oportunidade, rogo-te que me recomendes a Lúcio Élio Sejano. Rogo-te que lhe digas que estou a contemplar fazer algumas estradas novas neste país e que pedirei permissão para chamar a primeira delas pelo seu nome. Eu próprio lhe escreverei mais tarde. Esperava enviar-lhe um presente do vinho do país, mas, oh, meu querido amigo, é como vinagre. Não admira que os gregos aqui façam um comércio estrondoso em nobre Quio e no nosso quente Falerno. DECISÃO DE VISITAR JERUSALÉM Cesareia Decidi subir a Jerusalém em breve. Aqui quase não vejo nada dos meus judeus. Cesareia está cheia de gregos, sírios, fenícios, egípcios e toda essa espécie de ralé. Há muitos judeus, é verdade, mas são da espécie comum, como comerciantes, prestamistas e afins. Os homens que contam estão em Jerusalém, e poderia estar a milhares de milhas de distância, embora fique apenas nas colinas. Caifás é cuidadoso em manter contacto comigo, mas, no que toca à maioria deles, eu poderia nem sequer existir. Vou subir, portanto, para conhecer Anás e os seus amigos. Além disso, quero ver o seu quartel-general: o ninho em que abrigam as suas sedições, se alguma houver; a fortaleza que, segundo Márcio, dará trabalho até a Roma, se alguma vez nos desafiarem. Devo dar uma vista de olhos às defesas e considerar como a minha pequena guarnição ficará situada se houver um levantamento. As estradas também, e o abastecimento de água e coisas assim, que são sempre más até os Romanos lhes deitarem a mão. Também estou curioso por ver o Templo deles, embora suponha que mal me deixarão dar uma vista de olhos, e devo descobrir onde guardam o dinheiro do Templo, nem que seja para o proteger contra ladrões. Não precisas de suspeitar de mim; não emularei Crasso nem Sabino (ambos saquearam o tesouro do Templo), mas sabes que, se alguém assaltasse o tesouro deles, eu levaria a culpa. Asseguro-te que estou pronto a dar-me bem com eles, mas devo descobrir que espécie de pessoas são e o que estão a fazer. Aqui em Cesareia sinto-me cortado da minha própria província, e permaneço inquieto, embora o chefe da minha secção de informações relate que está tudo calmo e não há sinal de problemas a fermentar. Ele, aliás, é um samaritano grecizado, chamado José. A maior parte da sua família perdeu terras e vida às mãos de Herodes. Odeia os filhos de Herodes e odeia os judeus, portanto é um servidor útil para nós. Espero ir a Jerusalém dentro de três semanas. Os Jogos correram muito bem. Os gauleses e os britânicos lutaram magnificamente. A multidão ficou tão encantada que insistiu para que eles

lutassem outra e outra vez com novos antagonistas, até quase todos serem mortos. A competição entre os leões e os idumeus não foi tão bem-sucedida; os leões separaram os idumeus, portanto acabou depressa. Um dos idumeus lutou esplendidamente e eu gostaria de o ter salvo, mas os leões foram demasiado rápidos.

Houve um episódio curioso que ilustra a obstinação destes judeus. Havia quatro deles na prisão aqui, condenados à morte por assalto em estrada. Ofereci-me para os deixar lutar contra um tigre, sendo as condições que estariam armados com qualquer tipo de armas de madeira que quisessem escolher ou fazer, mas que primeiro prestassem homenagem pública ao busto de César na arena. Eles estavam perfeitamente dispostos a lutar e eram homens fortes e belos, todos eles, mas recusaram sacrificar a César. Disse-lhes que seriam lançados ao tigre tal como estavam, e eles riram-se de mim. Assim foram lançados, e agora Alexandre, com um rosto sombrio, avisa-me de que os judeus têm alguma objeção religiosa (para além da pessoal) a que os seus corpos sejam dilacerados por animais. Eles têm tantas objeções religiosas.

Reabri esta carta para te informar que Alexandre, apoiado por Márcio, José e todos os outros, me diz agora que não posso subir a Jerusalém no dia que eu tinha fixado, porque é o Sábado dos judeus. Seria uma ofensa profunda, dizem eles, seria tomado como uma provocação deliberada; haveria luto e protestos e talvez um levantamento. «Nada no Sábado!» disse eu. «Certamente que não!» Mas suponho que eles talvez abram uma exceção para fazer um pouco de motim. É claro que tive de ceder. Reconheci isso imediatamente pelo rosto de Márcio. O Sábado é inviolável; sagrado aos olhos deles, diz ele; não tolerarão trabalho de espécie nenhuma; não deves fazer isto, não deves fazer aquilo. Parece-me que mal há alguma coisa que se possa fazer. Pergunto-me: o seu sagrado rio Jordão flui no Sábado, ou descansa? Fiz a pergunta a Márcio. «Há alguns deles», respondeu ele, «que não comerão um ovo posto no Sábado.» «E uma galinha, então?», perguntei. «Podes cozinhá-la contigo no Sábado?» [?] «Nada a fazer», disse ele. «É claro», disse eu, «no Sábado eles não desempenham as [?] funções da Natureza?» Alexandre interveio. «Tens toda a razão», disse ele, olhando para mim com admiração. «Alguns deles não.» (As austeridades da seita essénia.) Fiquei um pouco perplexo. Mas supondo...» disse eu, e então fomos interrompidos e o assunto caiu. Seria bom que me escrevesses outro dos teus admiráveis ensaios sobre a virtude da tolerância e a igualdade do homem, pois asseguro-te que neste momento tenho grande necessidade dele.

DIFICULDADES EM VISITAR JERUSALÉM Cesareia

Podia rebentar de indignação. Está tudo pronto para a viagem a Jerusalém e esta manhã discuti com Márcio os últimos pormenores. «Mais alguma coisa em que consigas pensar?», perguntei. Sentia-me vivo, cheio de uma expectativa animada sobre Jerusalém, e quase amável para com os meus judeus. «É claro», disse ele, «não levamos as imagens nos estandartes.»

Mas os estandartes dos soldados romanos tinham frequentemente fixados neles medalhões com imagens dos Imperadores. «Protesto que deva ser mal compreendido. Estou a aprender a não me espantar neste país.» «Então, por que não?», disse eu. «Quando levamos os estandartes a Jerusalém», repetiu ele, «deixamos sempre os medalhões para trás.» «Não nesta ocasião», penso eu, disse. «Faça Valério Grato o que tiver sido suficientemente fraco para fazer.» Ele não mexeu um pelo. «Cada Procurador desde que César assumiu o país deixou as imagens para trás», afirmou ele, «senão os judeus ficariam profundamente ofendidos.»

Asseguro-te que o meu sangue ferveu. «Queres dizer-me», perguntei, «que quando o Governador romano faz a sua entrada formal na cidade principal dos judeus, deve omitir dos estandartes das suas tropas as imagens do Imperador Tibério César, que os deuses preservem, e de Augusto, divino Imperador, o seu grande predecessor?» «Devo», disse ele. «É a política aceite e rogo-te que a sigas. Os judeus não tolerarão as imagens de nenhum deus ou imperador em Jerusalém; nem estátuas, nem medalhões nos estandartes, nem imagens em moedas. Tu próprio sabes que, embora as moedas de prata cunhadas em Itália que chegam a este país tenham a imagem de César. Isso não pode ser evitado. As moedas de cobre cunhadas na própria Judeia não têm a sua imagem estampada nelas. O mesmo acontece com os estandartes.» Ele olhou-me na cara. «É a vontade de César que a religião deles não seja ofendida. Eles não têm imagem do seu deus. Nas profundezas do seu Templo em Jerusalém há uma pequena câmara que é habitada pelo seu deus, mas está vazia; não há nada nela.»

«César não terá objeção», disse eu, «se eu levar a sua imagem a Jerusalém, e nada acontecer. Ele ficaria contente por pensar que eu estava a quebrar a hostilidade destes judeus para com ele, Roma e todo o mundo exterior.»

«Se houver um tumulto», disse Márcio, «e um ataque às tropas nas ruas estreitas de Jerusalém, não posso responder pelas consequências. César ficaria contente então?»

Conversação franca, como vês. Alexandre estava lá e olhei para ele de tempos a tempos, mas o pequeno judeu teve o bom senso de manter a boca fechada. No fim, tive de ceder. Que mais podia eu fazer? Não posso arriscar um tumulto e um levantamento tão cedo no meu mandato, com tão poucas tropas disponíveis e a certeza de que seria condenado por fracasso, embora, se fosse bem-sucedido, toda Roma louvaria a minha firmeza.

Mas vai contra a minha natureza. Entrar em Jerusalém diante dos olhos destes sacerdotes arrogantes e do seu povo carrancudo, como se estivéssemos por tolerância. É o mesmo em toda a parte. Que pensam os britânicos quando veem que paramos aquém da ilha deles? Que pensam estes judeus quando veem que preferimos humilhar César a ofendê-los? Tomarão a tolerância por fraqueza e a cautela por timidez. E não fará bem nenhum. Mal virá disso. Repara bem, teremos de fazer o nosso trabalho outra vez e no fim teremos de o fazer cabalmente. Presentemente, devemos ceder. Eu ofenderia os judeus de bom grado, mas não posso permitir-me contrariar César nem Sejano.

Prócula vai comigo. Há muito que esgotou Cesareia; insiste que chegou a altura de ver algo verdadeiramente judeu. Digo-lhe que, em todo o caso, quando subirmos sem as imagens, ela estará a ver algo verdadeiramente não-romano.

RECEÇÃO EM JERUSALÉM Jerusalém

Estamos aqui há uma semana e parece um ano. É como se estivéssemos num país diferente. Senti-o imediatamente quando subimos da costa. Cesareia, afinal, é animada e alegre, com um rosto amigável para connosco. Aqui, enquanto marchávamos para cima e para cima, para estas colinas desoladas que se estendem para norte e sul até onde a vista alcança, senti-me como um invasor a entrar pela primeira vez numa terra hostil. Ao longo de todo o caminho vimos grupos de pessoas das aldeias e povoados dispersos a observar-nos em silêncio. Foi o mesmo quando entrámos em Jerusalém. Não houve boas-vindas nas portas nem nas ruas, pois o lugar parece um labirinto de tocas de coelho, e embora lhes tivesse sido dada a ordem, ou a escarnecer de nós nas ruas, pois o lugar parece um labirinto de tocas de coelho, e embora lhes tivesse sido permitido, eu não me importaria se a explosão viesse. [Nota: cláusula duplicada/confusa no livro impresso; transcrita tal como impressa.] Márcio diz que ela não virá, pelo menos ainda não. Os sumos sacerdotes, afirma ele — e com isso quer dizer o pequeno círculo de famílias de entre as quais o sumo sacerdote é sempre escolhido — terão o menos possível a ver comigo, mas têm as coisas bem em mãos. E eu tê-los-ei bem em mãos antes de terminar, e foi isso que disse a Márcio. Ele avisa-me para não esperar simpatia dos sacerdotes nem do povo. Para todos eles, somos estranhos e usurpadores, a ser encarados com frieza e suspeita até que o seu deus julgue conveniente remover-nos dos seus pescoços.

Esta é uma cidade miserável. Exceto as grandes obras de Herodes, mal há um único edifício que valha um olhar. Todo o orgulho e gosto que possuem, puseram-no no seu Templo. As ruas são estreitas e mal pavimentadas. Os esgotos e o abastecimento de água são vergonhosos até para a Ásia; não admira que sofram de toda a espécie de doenças. Terei de fazer alguma coisa sobre isto.

A mão de Herodes é evidente em toda a parte. Esse homem deve ter desesperado dos judeus e rido deles! Num dia, mimava-os e no dia seguinte batia-lhes na cara. O mais provável é que fizesse ambas as coisas quase juntas. Construiu-lhes um Templo que é uma das maravilhas do mundo e eles orgulham-se dele; e ao mesmo tempo construiu um teatro na Cidade e um anfiteatro fora dela. E de que servia isso, dizes tu, uma vez que abominam a introdução de espetáculos tão perversos? Penso que era exatamente isso que deliciava Herodes. Os seus sacerdotes e todas as suas gentes mais estritas denunciavam os jogos e o povo comum afluía para os ver. Que povo conseguiria resistir à tentação? Assim, Herodes, aos olhos do bom judeu, era um corruptor do povo, mais subtil e mais perigoso do que o mero perseguidor.

Escusado será dizer que Herodes construiu um palácio que é também uma fortaleza. Isso dava-lhe um domínio adicional sobre a Cidade. Fizesse ele o que fizesse, nunca esquecia a necessidade de se precaver contra o seu povo. Todo o país está salpicado das suas fortalezas. Não vivo no palácio; algo mais modesto chega para mim e para os meus soldados junto de mim. Não posso viver no [ilegível] sem o qual fica perto e sobranceiro ao Templo. Tenho as tropas lá e posso manter um olhar atento sobre o Templo, pois, se houver problemas em preparação, eles rebentarão na época das grandes Festas; é no Templo que, mais cedo ou mais tarde, ele se mostrará. Não consegues imaginar o desejo dos judeus de lutarem uns com os outros. São tão cheios de fações como os gregos, e sabes o que isso significa. Alguns deles favorecem a família de Herodes; os [ilegível] pensam que é melhor aproveitar-nos a nós, Romanos; os fanáticos e agitadores do povo comum olham com desconfiança para ambos. As gentes do campo estão sempre a subir do outro lado do Jordão ou da Galileia e os habitantes da Cidade são rápidos a arranjar problemas com elas, sem mencionar os samaritanos, com quem qualquer bom judeu está pronto a [?].

O Templo é espantoso. Não pode haver nada igual no mundo. É uma cidade em si mesmo, e os sacerdotes e servidores ligados a ele devem contar-se aos milhares. Há enormes colunatas e pátios, uns após outros. Os estrangeiros podem entrar no pátio exterior, e depois há uma barreira, e se algum estrangeiro a atravessar e for detetado, sofre a pena de morte. Até os nossos próprios soldados são executados por nós se transgredirem a barreira. Depois há outro pátio — reservado como limite para as mulheres — e outro para os homens, e assim por diante até aos pátios dos sacerdotes, ao grande altar do sacrifício e à câmara mais íntima de todas — escura e vazia, e ninguém entra senão o Sumo Sacerdote, e ele apenas uma vez por ano. A quantidade de sacrifícios feitos por particulares é espantosa, e a parte das vítimas — as ofertas são compradas e vendidas — é exatamente como uma grande feira. Os sacerdotes ficam com parte das ofertas e, para assegurarem o seu rendimento, insistem que ninguém ofereça sacrifício senão em Jerusalém e no próprio Templo. E depois há os presentes dos judeus ricos e o dinheiro do tributo de ricos e pobres igualmente. O Tesouro fica algures — algures nas profundezas do Templo, mas não sei onde precisamente.

Perguntar-me-ás como fui recebido quando entrei na Cidade pela primeira vez. Não bem. Eles pedem problemas. Eu tinha convidado todos os seus principais homens a encontrar-se comigo na Antonia na manhã seguinte à minha chegada. Não houve resposta, mas eles vieram. Alexandre dissera-me que seria melhor recebê-los no pátio exterior, pois alguns deles teriam escrúpulos em entrar no próprio edifício. Cheguei a oferecer-me para lhes dar comida e vinho — não vinho do país, mas vinho a sério — antes de partirem, mas, disse Alexandre, eles não o aceitariam; além disso, era o dia antes ou o dia depois de alguma festa. Alexandre respondeu que era impossível; eles não o aceitariam; além disso, era o dia antes ou o dia depois de alguma festa ou outra, e convidar os mais estritos do que nunca sobre encontrar-se com aqueles a quem chamam pagãos. [Nota: cláusula duplicada no livro impresso; transcrita tal como impressa.] Nisto, como em tudo, cedi. Não podes dizer que não sou tolerante.

Houve uma grande multidão quando eles vieram. Espero que a maioria deles estivesse tão curiosa por me ver como eu por os ver. Todo o Sinédrio lá estava, uns setenta deles. Este é o corpo que governa os judeus, sob a nossa autoridade; os seus sumos sacerdotes, funcionários e leigos mais distintos, os filósofos, compõem-no. Saudei Caifás e ele apresentou-me os líderes; entre eles, Anás e um ou dois que tinham ocupado o cargo de Sumo Sacerdote, o Capitão da Guarda do Templo, o chefe do Tesouro e mais alguns. Anás tinha lá os seus filhos, uma fila inteira deles. Um deles já foi Sumo Sacerdote, e sem dúvida os outros esperam sê-lo. O velho, diria eu, vale todos eles juntos.

(Nota: Cinco filhos de Anás ocuparam o cargo. Eleazar fora Sumo Sacerdote cerca de 16-17 d.C., Jónatas tornou-se Sumo Sacerdote em 36-37 d.C. e foi mais tarde assassinado por instigação do Procurador Félix. Teófilo foi Sumo Sacerdote depois de Jónatas, e Matias alguns anos mais tarde. Anás, o mais novo, tornou-se Sumo Sacerdote durante alguns meses em 62 d.C., e foi assassinado pela populaça.)

Ele tem um rosto de falcão, com lábios finos (para um judeu), e de vez em quando, quando está comovido, uma faísca de fogo nos olhos. Não sei se é a astúcia ou a inclinação que decide a sua política, mas, embora seja um dos chefes dos nobres sacerdotais que trabalham connosco e são quase todos da fação chamada saduceus, ele procura o apoio e o aplauso da outra fação, os fariseus, que são todos pela

máxima observância da lei judaica e por tanta oposição quanto praticável a gregos e romanos e a quaisquer outros estrangeiros.

Agora observa o que aconteceu. Os principais saduceus têm assentos no Sinédrio, mas a maioria dos seus membros são fariseus, que encaram os saduceus com suspeita e desaprovação, como contemporizadores na religião e (portanto) na política. Todos escutavam para ouvir o que eu diria e o que os nobres saduceus me diriam. Depois das apresentações, comecei por dizer a Caifás que lamentava que eles não tivessem julgado conveniente saudar-me à minha entrada na Cidade. Falei em grego porque, como sabes, essa é a língua dos instruídos em todo o Oriente. Antes que Caifás pudesse responder, Anás disse algo agudamente numa língua estrangeira e houve um pequeno movimento de aplauso entre alguns deles. Caifás disse apressadamente que era uma questão de costume e que o Governador romano nunca, até agora, exigira uma acolhida formal ao entrar em Jerusalém.

Estou a tornar-me, realmente penso, um milagre de autocontrolo. Não perguntei o que Anás tinha dito, mas descobri depois que ele dissera em aramaico, que usam entre si, que certamente bastava que eles consentissem em vir ter comigo. Contudo, voltei-me para eles e disse — outra vez em grego — que esperava que estivesse melhor a indisposição que o impedira de vir dar-me as boas-vindas em Cesareia. Ele sorriu ligeiramente e respondeu, outra vez em aramaico — uma coisa insultuosa de fazer — e houve uma gargalhada geral. Desta vez fiz Alexandre traduzir para mim. Parece que o insolente dissera que a sua indisposição estava melhor, mas podia voltar a qualquer momento. Contudo, sei como lidar com tal gente e dirigi-me a eles em latim, para lhes ensinar o seu lugar, e ordenei a Alexandre que traduzisse para grego. Disse-lhes redondamente que estava desagradado com a minha receção em Cesareia e, ainda mais, em Jerusalém, mas que não teriam razão de se queixar de mim enquanto a sua conduta fosse sinceramente leal. Eles escutaram com azedume e então Caifás disse apressadamente que conheciam o seu dever para com César e Roma. Perguntei se tinham algum pedido a fazer-me, e ele respondeu que contribuiria para o bom sentimento e o contentamento se eu devolvesse as vestes do Sumo Sacerdote à guarda deles. Isso, respondi, como em Alexandria, era uma questão para César, e dependeria inteiramente da conduta deles se eu poderia fazer alguma recomendação. Depois passei a dizer que admirara muito o que vira do Templo e desejava inspecioná-lo; talvez alguns deles me mostrassem as suas maravilhas no dia seguinte. Caifás assentiu. Sugeri que aqueles que tinham sido Sumos Sacerdotes nos acompanhassem. Todos olharam para Anás. Ele curvou-se gravemente. «Até ao pátio exterior!», disse ele, desta vez em grego. Realmente, o homem é intolerável. «Isso eu sei», disse eu. «Não erigimos nós inscrições, tanto em grego como em latim, proibindo os estrangeiros de passar além do pátio exterior?» Depois não consegui resistir à tentação. «Contudo, ouvi dizer», acrescentei, «que um dos meus predecessores visitou até a câmara mais íntima.» Lembras-te de que, quando Cneu Pompeu tomou Jerusalém no decurso das suas conquistas orientais, penetrou na câmara mais sagrada — um ato de profanação que eles nunca perdoaram. Devias ter visto os rostos deles. Um murmúrio de horror e de ira irrompeu deles; alguns cuspiram no chão; alguns deram um passo na minha direção. Anás avançou, mas não lhe dei tempo de falar. «Eu próprio não tenho intenção», disse eu, «de ir além do pátio exterior, tal como tenho confiança de que continuareis a realizar o sacrifício diário em honra de César e de Roma.» Isso acalmou-os, pois era um lembrete de que, tolerantes como somos, exigimos deles um símbolo diário de submissão. (Nota: Pompeu, o Grande, que entrou no Santo dos Santos em 63 a.C.)

Finalmente, disse-lhes que esperaria que me reportassem prontamente qualquer agitador entre o povo comum que pudesse ameaçar problemas. Não precisava, disse eu, de particularizar o tipo de problema que queria dizer; eles sabiam muito bem o que acontecia quando algum ladrão ou fanático, meio louco com a religião ou com a liberdade do seu país, começava a estabelecer-se como líder e a reunir um séquito. Confiava neles para um apoio leal. Com isto, despedi-os.

Passarei aqui uma quinzena e depois farei uma ronda de inspeção antes de regressar a Cesareia. Devo ver as gentes do campo. Creio que eles não têm a menor compreensão do poder e da importância de Roma — uma forma de ignorância muito perigosa. Ficarei contente por me ir embora, mas Prócula lamentará deixar Jerusalém. Acha tudo pitoresco e, além disso, a religião e o culto do Templo deles atraem-na. É curioso como estas religiões orientais fascinam as mulheres. Se não é a egípcia, é a marca judaica; quanto maior o mistério e a trapalhada, mais prontas estão a submeter-se aos sacerdotes. Prócula visita o pátio exterior e questiona Alexandre sobre a maravilhosa câmara interior vazia deles. Digo-lhe que um dia ela se esquecerá e atravessará a barreira. Então será o meu desagradável dever mandar executá-la.

A propósito, tenho duas perguntas para ti. Quantas sinagogas há em Jerusalém? Cinquenta, dizes tu? Há quase quinhentas. E quem descobriu o alfabeto? Os antigos egípcios ou os assírios, respondes tu. Não, foi Abraão, o antepassado dos judeus. Não acreditas? Que presunção! Nem eu, mas os judeus acreditam, ou fingem acreditar. Tudo o que é bom deve ter saído dos judeus. Não sei, mas espero que reivindiquem a descoberta do fogo e da roda do carro. É uma consolação que, pelo menos, tenhamos o crédito pela boa espada romana.

A tua mente serena e tolerante não aprovará, receio, o tom desta carta. Confesso livremente que Jerusalém não melhora o meu humor.

PRIMEIRA MENÇÃO DE JOÃO, O BATISTA Cesareia

Agradeço-te as tuas cartas e especialmente o teu zelo em defender os meus interesses contra Pompónio Rufo. Avisei-o há muito que a sua casa nova, se construída até essa altura, interferiria com os meus direitos de luz. O patife astuto esperou o suficiente para executar os seus planos. Que ele descubra nos tribunais, meu amigo, quão firme campeão e quão eloquente advogado possuo em ti.

Soube na semana passada que um pregador itinerante aparecera na região montanhosa a sul de Jerusalém. O seu nome é João. Como parecia que estava a causar certa agitação, e podia causar mais, enviei José a Jerusalém numa missão de inquérito. Dei-lhe autoridade para, se julgasse necessário, procurar pessoalmente a fonte do fermento e relatar a quanto ele monta. Pode não ser nada, mas devo saber.

MAIS NOTÍCIAS DE JOÃO Cesareia

Tive notícias de José. Ele diz que o assunto pode ser sério e, depois de reunir as informações disponíveis em Jerusalém, partiu para as montanhas para ouvir por si próprio o que o pregador João está a dizer. Desejo-lhe boa sorte na expedição. É uma região tão desagradável como qualquer outra em todo o meu domínio — montanhas desoladas e estéreis, sulcadas por ravinas profundas e cursos de água, que descem acentuadamente até ao vale do Jordão e ao Mar Morto. É habitada principalmente, tanto quanto consigo apurar, por aves de mau agouro, feras selvagens, leprosos e eremitas meio loucos como este João parece ser. Na ausência de José, tenho estado a examinar os relatórios dos nossos espiões noutras partes do país. Parece que a fama de João se está a espalhar e o povo comum começa a falar dele. Alguns deles estão a partir em grande expectativa para o cenário da pregação. Ficarei contente por ter o relatório de José. Esta é a minha primeira experiência deste tipo de agitação e lidarei firmemente com ela.

Mais uma palavra sobre Pompónio. Não poupes despesas. O importante não é tanto que os meus direitos de luz sejam protegidos, mas que Pompónio seja mostrado como um patife.

RELATO DE UMA TESTEMUNHA OCULAR SOBRE JOÃO Cesareia

O que ouço de Roma faz-me quase ficar contente por ser um mero Procurador. Um amigo comum nosso — é melhor não mencionar nomes — escreve-me que Sejano não só ambiciona casar na família de César, como ao mesmo tempo fala com desprezo do próprio César. «Monarca de uma ilhota», chamou-lhe no outro dia — já ouviste isso? Mal me atrevo a escrever as palavras. Se estas coisas chegarem aos ouvidos de César, ficarei contente por não lhe dever a minha nomeação.

José voltou finalmente e estive em consulta com ele e com Alexandre. Teve alguma dificuldade em localizar o pregador. Teve de subir colinas e descer vales em todo o tipo de tempo, e foi encarado com um olhar hostil pelos judeus que também estavam na estrada. Há muitos deles na estrada também; a maioria da Judeia, mas bastantes do território de Antipas, do outro lado do Jordão, e alguns de Samaria e até da Galileia. Quando finalmente descobriu João — o homem move-se de aldeia em aldeia o tempo todo — sabes o que ele encontrou? Um dos oficiais de Antipas, que observava João em nome do seu senhor. Falava-se que João em breve deixaria o meu território e passaria para o de Antipas. Não sei se lhe darei a dica.

Segundo o relatório de José, ele é «meio vestido, meio faminto e meio louco», mas isso simplesmente não é o assunto com estes judeus. [Transcrito tal como impresso; provavelmente «but that does not matter».] É o que ele diz que conta, ou melhor, talvez, o que eles escolhem pensar que ele quer dizer. Ele está a dizer-lhes que a grande época, a nova era, que todos esperam, está a chegar, e para eles isso só significa uma coisa: nada mais de Herodes, nada mais de romanos, nada mais de governadores, tropas ou impostos. A ideia de liberdade, de independência, do renascimento dos dias gloriosos que desfrutaram sob os seus antigos reis — é isso que os atrai de todo o país. José declara que João só precisa de anunciar que é o líder esperado e todo o campo estará em chamas. Ele não finge, segundo José, ser ele próprio um líder, mas está a fazer algo quase tão mau: diz-lhes que um líder está a chegar, e em breve, o que é exatamente o que eles procuram. Perguntei a Alexandre sobre isto e ele é sábio e misterioso. Perguntei-lhe se este líder era o mesmo que o «Messias» — pois lembro-me de que Caifás falara dele. Ele diz que não; que antes do libertador deve vir, segundo os escritos deles, um mensageiro ou profeta de vanguarda — o que quiseres chamar-lhe — e que, quando esta pessoa chegar, então todo o povo saberá que o libertador em pessoa virá a seguir.

Verás que, do ponto de vista do Governador romano, é tudo a mesma coisa. João prediz a iminência de um novo profeta; o aparecimento do profeta será seguido pelo do libertador, e então César e Roma darão lugar à nova era. É, concordarás, impossível que ideias tão fantásticas mas perniciosas sejam autorizadas a espalhar-se entre o povo. Não consegues imaginar a expectativa que há por toda a parte no ar aqui. Todos estão à espera, à espera, das coisas que hão de acontecer. Tenho a convicção de que o melhor lugar para pessoas como João é a prisão, e é lá que proponho colocá-lo em breve.

Escrevi a Caifás a perguntar o que ele e o Sinédrio têm a dizer sobre isso e a informá-lo do que tenciono. Eles já me deviam ter reportado antes de agora.

Não devo esquecer-me de te contar uma coisa divertida sobre João. Ele está a dizer aos judeus que, para se tornarem dignos dos grandes dias que estão a chegar, devem humilhar-se pelas vidas perversas que levaram. Isso diverte-me, como te divertiria a ti se conhecesses os judeus. A maioria deles não aprecia nada esta parte da doutrina. Na sua própria opinião, não têm nada por que se humilhar; nem nunca tiveram. A nova era está muito bem, mas o seu papel é colocar os judeus acima de todos os outros povos. A humilhação é própria de gregos, romanos e afins. Gostaria de saber o que o meu amigo Anás pensa de se humilhar a si próprio ao mando de um pregador esfarrapado escapado de uma caverna! Mas já o sei. Os sacerdotes estão habituados à conversa de João. Eles vivem e desprezam o sacerdócio fácil de Jerusalém. [Transcrito tal como impresso; o livro impresso está confuso aqui.] Anás e Caifás dar-lhe-iam um tratamento breve (confissão / absolvição). Tenho a certeza, especialmente se ele mostrasse sinais de se tornar realmente popular. Está muito bem que o Yahweh deles produza uma nova era, mas os Sumos Sacerdotes certamente esperam ser consultados primeiro.

Isto parece-me uma oportunidade para me afirmar. Esperarei por uma carta de Caifás, mas, diga ele o que disser, tenciono agora reforçar a guarnição em Jerusalém. Espero a tua aprovação.

AS IMAGENS DOS CÉSARES Cesareia

Tive notícias de Caifás sobre João. Ele envia-me uma resposta oficial enquadrada com o maior tato. Talvez gostes do texto dela. Diz: «O Sinédrio, tendo enviado representantes para questionar João, filho de Zacarias, e tendo-se assegurado de que ele não afirma ser nem o Messias dos judeus nem um dos Profetas, é de opinião que ele não cometeu nenhuma ofensa sob a Lei que justificasse colocá-lo em julgamento. Ao mesmo tempo, reconhece que o poder civil pode razoavelmente ter uma visão mais ampla das consequências que poderiam seguir-se de um alargamento do seu ensino.» Caifás enviou uma nota privada pelo mensageiro. Não tem objeção a que eu tome

medidas, se eu as julgar necessárias. Tenho a certeza de que, no fundo, ele e os seus amigos esperam que eu o faça. Vês o jogo. João pode facilmente tornar-se um embaraço para eles, mesmo que ainda não o seja. Gostariam de o ver fora do caminho, mas convir-lhes-ia mais que eu o removesse do que serem eles a suportar o ódio por isso. Por minha palavra, não os obrigaria, mas pensei numa nova medida para ensinar a ambos, e ao povo comum, quem é o seu senhor aqui. Disse-te que decidira enviar mais tropas para Jerusalém, caso este assunto de João causasse distúrbios. Decidi que as novas tropas transportarão desta vez as imagens Imperiais nos estandartes quando entrarem em Jerusalém. «Que loucura!», ouço-te dizer, e imediatamente conjuras visões de motim, tumulto e guerra aberta. Mas escuta. Não dás ao teu Pilatos crédito suficiente pela sua sagacidade. Pensas que só os judeus são astutos? As minhas tropas entrarão em Jerusalém no meio da noite. De manhã, quando os judeus acordarem, tratarem dos seus afazeres e afluírem ao Templo, verão os estandartes, com as imagens proeminentemente exibidas sobre eles, já estabelecidos nas muralhas da Antonia. Eles assaltarão a Antonia, dizes tu? Conta isso aos Fuzileiros. Mas, se o tentassem, que história teria eu para enviar a Roma! Os judeus incómodos e traiçoeiros a fazer um ataque direto às imagens de César e aos estandartes das legiões, depois de eu ter respeitado os seus escrúpulos a ponto de enviar as tropas sob a cobertura da escuridão! O que diria a nossa turba romana patriótica a essa história? Ora, eu seria um herói por um dia e teria as legiões sírias colocadas à minha disposição. Mas não temas. Quando Jerusalém ouvir que o falador João vai ser preso e vir as águias romanas no seu meio, pensará duas vezes antes de resistir abertamente. Caifás ficará chocado com a minha imprudência, mas é tempo de eles compreenderem que fazem parte do Estado romano, e dei as minhas ordens a Márcio.

Estou a enviar-te alguma cerâmica síria. Espero que os teus escravos sejam mais cuidadosos do que os meus. Disse aos meus que o próximo que danificar um vaso ou uma estátua valiosa figurará nos Jogos, e não como espectador.

O FARDO DO ROMANO Cesareia.

Recomenda-me, meu amigo, como um bom romano. Também eu estou a levar as bênçãos da Itália ao Oriente ignaro. Trouxe dois agrimensores, um de Alexandria e um de Antioquia. Instruí-os a apresentarem-me planos para refazer certas estradas, para construir banhos em Samaria e para conduzir um bom abastecimento de água a Jerusalém a partir das nascentes a sul da Cidade. Não receberei agradecimentos por isto, mas onde ou quando recebe o romano gratidão pelos benefícios que traz aos povos orientais? Eles vivem como porcos e, quando ele os levanta do seu estado imundo, apenas se queixam de que ele lhes espreme dinheiro para pagar obras públicas que ele quer e eles não. Não foi César Augusto — ou foi o grande Júlio — quem chamou a isto o fardo do romano, que, sejam quais forem as suas inclinações, ele não pode evitar?

Acreditarias que em Samaria não há banhos, embora os nossos oficiais, tanto militares como civis, subam lá no tempo quente pela sua saúde? Quanto às estradas, proponho reconstruir a que corre ao longo da costa e as duas que entram em Jerusalém pelo norte e pelo leste. As nossas tropas mover-se-ão muito mais depressa, e assim, é claro, o comércio e o tráfego de peregrinos, o que ajudará o meu sucessor. Quanto ao abastecimento de água, será uma pura benfeitoria para Jerusalém, pela qual deviam erigir-me uma estátua. Contudo, sabes, a única questão que lhes interessa de todo é: quem vai pagar por isso? Como conseguem eles sobreviver de todo nas condições presentes na época das suas grandes festas, não consigo compreender. Normalmente, talvez, Jerusalém tem cerca de 50,000 habitantes, e há apenas alguns poços de água para os abastecer a todos. Mas na época da Páscoa os peregrinos chegam às dezenas de milhar. Ninguém sabe o total exato, mas alguns dizem que há meio milhão de pessoas apinhadas em Jerusalém e nas aldeias circundantes. A própria Jerusalém está apinhada; dormem nos telhados e até nas ruas, e afluem em bandos cada manhã do campo circundante. De onde tiram todos eles a sua água para beber e para as suas abluções cerimoniais? Não te sei dizer, a não ser talvez que o deus deles, Yahweh, a forneça por um milagre, ou que a festa conte como um Sábado contínuo e eles não devam beber de todo. Contudo, água terão, limpa e abundante, queiram ou não, e terão de pagar por ela segundo o costume das províncias romanas.

As tropas partiram, com Márcio no comando. Transportam as imagens de três Césares — o próprio Tibério, Augusto e Júlio. Estarão na Antonia antes do amanhecer de amanhã. Dirigi-me aos homens pessoalmente. Disse-lhes que o nome de Roma e dos Césares estava ao seu encargo e que deviam protegê-lo, mas que, da parte deles, não devia haver provocação.

Disse a Márcio que enviasse uma tropa, prendesse João e mo despachasse para Cesareia. Devo fazer isto em qualquer caso, pois, se Antipas souber, como sabe, que a insatisfação está a ser agitada do meu lado da fronteira, tirará o máximo partido disso.

CONFLITO COM OS JUDEUS Cesareia.

Agora tenho notícias para ti. Tive a semana mais excitante da minha vida. Verdadeiramente, deitei a gordura no fogo. Jerusalém está em alvoroço, o tumulto espalhou-se por todo o país, e aqui em Cesareia estou cercado por uma multidão de judeus furiosos.

A princípio tudo correu bem. As tropas chegaram à Antonia ainda estava escuro e os estandartes foram erguidos nas ameias. Podiam ser vistos de algumas partes do Templo. Devo dizer-te que, com a primeira madrugada, os sacerdotes começam os seus preparativos para o sacrifício da manhã e em breve a multidão de adoradores se reúne. (Um bom costume, já que faz o povo levantar-se cedo.) Mal era dia quando alguém descobriu as imagens nos mastros dos estandartes. Eles têm olhos de falcão no que nos diz respeito. Imediatamente houve um clamor. Alguns correram para a Antonia, outros para os sacerdotes, outros de volta à cidade para espalhar a notícia. Caifás chegou à Antonia num instante e implorou a Márcio que, pelo menos, removesse os estandartes da vista pública. Márcio disse educadamente que não e remeteu-o para mim. Caifás disse que teria de adotar uma linha firme; já convocara o Sinédrio; queixar-se-iam não só a mim mas a Roma e di-lo-iam ao povo, mas duvidava que a turba pudesse ser contida de um ataque real à cidadela. Márcio não cedeu e Caifás não sabia o que fazer. Entretanto, toda Jerusalém se reuniu no Templo e em volta da Antonia. Ameaçavam não só a nós mas também o Sinédrio. Muitos deles traziam paus e pedras e, quando Caifás saiu dos escritórios do Sinédrio para lhes falar, ameaçaram-no violentamente, acusando o Sinédrio de ter trazido este «insulto» sobre a religião deles pela sua tolerância para connosco e exigindo que assegurasse imediatamente a sua remoção. Caifás respondeu que

o Sinédrio faria o máximo que pudesse, mas não devia haver violência; enviariam imediatamente uma deputação poderosa a mim, em Cesareia, e, se eu não cedesse, apelariam de imediato a César e pediriam a minha remoção. Acrescentou que, se algum da multidão quisesse acompanhar a deputação, podia fazê-lo; podiam ajudar a provar-me quão profundamente comovidos estavam por este ato de sacrilégio, mas só causariam um dano sério à sua religião e ao seu país com um alvoroço em Jerusalém. Caifás é um homem astuto. Forneceu-lhes uma válvula de escape para a sua ira e a si próprio o meio (como esperava) de me intimidar.

Levando-o à palavra, eles vieram a Cesareia. Sim, meu caro Sêneca, deixaram o seu trabalho e a sua religião e partiram a pé, milhares e milhares deles, para mim em Cesareia. Vieram não só de Jerusalém, mas de cem cidades e aldeias; por toda a parte, à medida que a notícia se espalhava, partiam para Cesareia. Quando ouvi o que estava a acontecer, subi ao telhado do palácio — isto foi há quatro dias — e as estradas estavam negras deles até onde a vista alcançava. Marchavam firmemente, como homens com um propósito, cada um com um séquito de alunos e admiradores. Todas as idades lá estavam, de velhos de barbas cinzentas até rapazes. Os seus rabis mais eruditos vieram; Anás. Quando a deputação entrou no palácio houve uma cena tremenda de entusiasmo entre eles. O resto da população observa com azedume. Com um pouco mais de provocação, haveria um massacre.

Gostei bastante da conversa com os sacerdotes. Caifás estava digno, Anás truculento, e o seu filho Eleazar (anteriormente Sumo Sacerdote) ruidoso. Mas, todos e cada um, estão ansiosos por sair de um buraco. Têm medo da turba e ainda mais medo dos seus inimigos em Jerusalém, que estão ocupados a minar a sua posição, chamando-lhes pró-romanos, «cúmplices da idolatria» (o crime dos crimes aos olhos de um bom judeu), traidores e coisas afins. Podes imaginar facilmente os argumentos. Do lado deles, nenhum Procurador alguma vez fizera tal coisa antes; César desaprovaria; César sempre fora atencioso; nem eu, nem César — especialmente César — poderiam desejar motim e revolta aberta, que eram de esperar se eu não cancelasse a minha ordem. Da minha parte, a presença das imagens era um sinal comum da autoridade romana; era muito menos ofensiva do que o sacrifício diário que já realizavam a César e a Roma; eu tinha-me esforçado por poupar os seus sentimentos, enviando as tropas sob a cobertura da noite; retirar as imagens agora seria uma humilhação sem precedentes de César e retirá-las diante de ameaças seria uma prova sinal de fraqueza.

Desde esta reunião, eles vieram aqui várias vezes, tanto pública como privadamente, e a intervalos arengam à multidão. Disse a Caifás que deve ordenar ao seu povo que regresse a casa, mas ele diz que o máximo que pode fazer é mantê-los calmos, prometendo não me dar paz até me ter persuadido. O número deles, longe de diminuir, aumenta firmemente. Muita gente vem por curiosidade, mas toda a espécie de fanáticos selvagens está a chegar de partes distantes e a fazer discursos violentos. Não sei como todos subsistem, mas suponho que uma boa disputa sobre religião é carne e bebida para eles.

A situação não pode durar, mas confesso que a acho um pouco difícil de lidar. Podia dispersá-los pela força, mas não quero derramamento de sangue; todas as pessoas em Roma que são pela paz e pela quietude (e que não compreendem minimamente as dificuldades dos governadores provinciais) se levantariam contra mim. Por outro lado, não devia ceder. Quero muito ensinar uma lição a estes judeus. Além disso, é realmente importante, como questão de política, quebrar a exclusividade deles, e fiz um começo. Longe de o domínio romano ser genuinamente aceite aqui, há um movimento lento mas firme contra ele e contra os sacerdotes que o toleram. A menos que comecemos a quebrar a obstinação deles, teremos, dentro em breve, de reconquistar a Judeia. Se ao menos pudesse contar com o apoio adequado em casa, mas aí está — sei que, quando falo com a mão no punho da espada, não devo esperar demasiada simpatia de ti.

Quem dera que tivesses tu o trabalho durante alguns meses.

Dir-te-ei qual será o desfecho.

DERROTA DE PILATOS Cesareia

Agradeço a Jove que o lugar esteja outra vez livre de judeus. O último do seu bando desordenado está a desaparecer nas montanhas, e escrevo-te, meu caro Sêneca, à pressa para te contar o que aconteceu. Serei bastante franco contigo, pois a verdade é que posso precisar da ajuda tua e dos meus outros amigos. Fico contente por o próprio César não estar em Roma, pois não posso esconder de mim próprio que os factos poderiam ser mal representados a ele. Não, disse que seria franco contigo; devia ter medo de que os factos lhe fossem reportados verdadeiramente.

Ao fim de quatro dias, os judeus não mostravam sinais de enfraquecer. Ficavam de pé, sentavam-se, dormiam e faziam as suas orações em volta do Palácio e nas ruas e praças adjacentes. Especialmente faziam as suas orações. Márcio escreveu-me que tudo em Jerusalém estava parado e que ele estava passivamente sitiado na Antonia. José relatou que o Sinédrio enviara emissários a Herodes Antipas, ao seu irmão e ao Governador da Síria, implorando-lhes que interviessem junto de mim, com o fundamento de que um surto sério na Judeia teria uma repercussão desagradável nos territórios deles. Os sacerdotes também tinham escolhido a missão que, se necessário, enviariam a Roma. Determinei usar uma ameaça direta de força militar. Anunciei que no dia seguinte — o sexto dia destes procedimentos — os judeus se reuniriam na praça do mercado de manhã cedo e eu dirigir-me-ia a eles pessoalmente. Ao mesmo tempo, ordenei que todas as tropas disponíveis estivessem escondidas nos edifícios circundantes. Ao concluir o meu discurso, elas sairiam e avançariam sobre os judeus. A praça do mercado é um espaço aberto que comporta vinte mil pessoas, e estava apinhada. O ruído, quando cheguei, era indescritível. Durante dez minutos gritaram para mim e uns para os outros. Comportavam-se como loucos. Não sei o que estavam a dizer; duvido que muitos deles próprios o soubessem. Os sacerdotes, que tinham feito uma linha (para me proteger, creio) diante da plataforma elevada em que eu estava sentado, não conseguiam obter silêncio. Finalmente levantei-me, fiz um sinal aos meus oficiais e fiz como se fosse partir. Isso acalmou-os por um segundo e Caifás, subindo à plataforma, disse-lhes que o Sinédrio me pedira para me dirigir a eles pessoalmente (isto não era verdade) e que era dever deles escutar em silêncio. Eles ficaram silenciosos por algum tempo.

Fui educado, fui conciliador. Disse-lhes que César sempre estivera ansioso por não interferir com a religião deles e que eu não estava menos disposto do que outros Governadores a respeitar os seus escrúpulos. Mas isto não era religião, era puramente um ato administrativo ao qual eles não deviam

levantar objeções. Não podiam esperar estar isentos dos símbolos do domínio romano, quase diria da cidadania romana, que eram comuns a todo o mundo civilizado. A isto surgiram murmúrios. Eu estava disposto, disse, a considerar qualquer pedido razoável que pudessem fazer, mas antes de tudo deviam regressar calmamente às suas casas. Até lá, nada podia ser feito. Ou desejavam entrar em conflito com o poder de Roma? Cessei abruptamente e fiz o sinal. Imediatamente as tropas apareceram de todos os lados e, com todas as suas armas prontas para uso imediato, cercaram a multidão.

Que supões que eles fizeram, não habituados [?] aos sábios de Roma? Cair em pânico, tremer diante da espada romana, procurar fugir? Não mostraram sinais disso. Assaltar as tropas, mergulhar no conflito com que eu os ameaçara? Nem por um momento. A princípio ficaram surpreendidos e não fizeram som nem movimento. Então um dos seus líderes, diante de mim, gritou alto em aramaico e, desnudando o pescoço à espada, ajoelhou-se diante do soldado mais próximo dele. Ele dissera, segundo me contaram, que preferiria sofrer a morte a ceder. Num instante, seguiram o seu exemplo. Por toda a parte, sacerdotes e povo igualmente, ajoelharam-se com os pescoços desnudados, fila após fila, à frente para apresentar os seus pescoços ao carrasco romano e atrás dos afortunados, muito bem, ordenar um massacre em massa. Eu nunca milhares sobre milhares, a aguardar a sua vez. [Nota: o livro impresso está confuso/embaralhado nesta passagem; transcrita tal como impressa.] A posição era ridícula. Não podia muito bem ordenar um massacre em massa. Falhara na intenção. Mesmo que tivessem apenas uma cabeça, não poderia tê-la cortado, embora isso me tivesse dado o maior prazer. Fracassei e soube-o. Levei apenas alguns segundos a decidir-me. Fiz sinal aos sumos sacerdotes para me seguirem e retirei-me para consulta. Deixa-me abreviar a história da minha humilhação. Anunciei que estava profundamente impressionado com a devoção deles à sua religião (e isso era suficientemente verdade), mas que o que mais me impressionava era a ordem e a calma resolução que exibiam. Se tivesse sido de outro modo, se tivessem procurado intimidar-me com violência — mas vês o argumento e, embora possas sorrir, asseguro-te que os sacerdotes não sorriram. Agradeceram-me gravemente e Caifás saiu e arengou-lhes. Depois, jubilação, ação de graças e, é claro, mais orações. Yahweh fica com o crédito por isso. [Nota: a própria fonte impressa usa «Yahweh» aqui.] Durante todo o dia têm estado a partir, cantando os seus salmos. Que cantem enquanto podem. Mas, se [impressão confusa na viragem da página na fotografia; o sentido retoma abaixo] devem ter confiança em mim e nos seus sacerdotes e regressar calmamente às suas casas, cantando os seus salmos. Que cantem enquanto podem.

um dia eles terão um tipo diferente de governador de mim. Se César abandonar a sua política de tolerância paciente, se os seus fanáticos selvagens derrubarem estes sacerdotes políticos e astutos, se os exércitos romanos marcharem — Yahweh salvá-los-á então? Afinal, apenas procurei compelir o respeito

Espero que tu e os meus outros amigos apresentem a melhor face disto quando esta história chegar a Roma. Afinal, perdi a jogada. por César e as suas imagens dominaram sobre o Templo deles durante uma semana. É um começo, mesmo que no final eu tenha perdido a jogada. [Nota: cláusulas duplicadas/embaralhadas no livro impresso; transcritas tal como impressas.]

Agora aguardo o pregador João. Márcio já deve tê-lo apanhado. Quando ele estiver em segurança aqui na Gália [impresso «Gaul»; quase certamente «gaol»], a espada lidará com ele. Se a vitória deles sobre mim os fizer pensar que a nova era começou, pelo menos cuidarei de que o profeta não viva para a ver.

Então leste uma das tuas tragédias a um público admirador em Roma? Tenho a certeza de que estará cheia de belos sentimentos. Quem dera que eu estivesse lá para os escutar. Quem dera que estivesses aqui para os aplicares a estes judeus incorrigíveis, comigo a assistir à diversão.

PRISÃO DE JOÃO POR HERODES ANTIPAS Cesareia

Márcio regressou a Cesareia trazendo duas informações. A primeira é que me tornei popular em Jericó, a cidade fronteiriça junto ao rio Jordão. É um lugar muito importante, pois o comércio do vale inferior do Jordão passa por ela e o direito aduaneiro é grande. Há algum tempo, foram-me feitas queixas de extorsão grosseira contra o pessoal aduaneiro. O coletor-chefe é — era, devo dizer — um judeu de classe baixa. Ele roubava os mercadores à esquerda e à direita e os proventos não chegavam ao meu tesouro. Um dos seus subordinados, outro judeu, que pensava não estar a receber uma parte justa dos despojos, traiu-o a ele e a dois subordinados. Foi um caso mau; tinham retido algum do nosso dinheiro, bem como os lucros das suas próprias extorsões. Julguei-os aqui em Cesareia e depois enviei-os de volta a Jericó, o líder para ser crucificado e os outros dois para serem flagelados até à morte. Os judeus ficaram encantados, não só porque o coletor-chefe os roubara, mas porque era um judeu a quem odiavam por entrar no nosso serviço. Agora podem odiar o seu sucessor, pois vou nomear o denunciante para o seu lugar. Devia poder contar com a sua lealdade, se ele não for assassinado pelos seus compatriotas. A outra notícia é que João me escapou. Foi numa das suas expedições de pregação ao país de Antipas. O resultado foi o mesmo que connosco: multidões de camponeses miseráveis a excitar-se até ao frenesim e a querer saber se não podiam seguir a sua liderança. Antipas pode dispensar a conversa de um novo Reino ainda menos do que nós. Se houver problemas no país dele, tropas romanas serão enviadas para o ajudar, e uma vez lá, será adeus à sua monarquia ridícula e pequena. Ele sabe isso e estava à espera de João. O pregador está agora seguramente guardado nas masmorras de Maquerus, uma fortaleza desagradável e sombria nas colinas a leste do Mar Morto. Diria que ele viu o último da sua Judeia. Se Antipas tiver algum bom senso, fará um fim dele. É o único método seguro, acredita-me, com pessoas que misturam a sua religião e a sua política.

Não lamento, pensando bem, que Antipas tenha tomado este assunto a seu cargo. Certa quantidade de ódio recairá sobre ele, pois João tem muitos seguidores. Mas por vezes, quando fico acordado de noite, desejo ter sido eu a lidar com João. O coletor de impostos de Jericó é um substituto pobre.

O PROBLEMA DO AQUEDUTO Cesareia

Não fiquei surpreendido ao saber que os dois Herodes apresentaram uma queixa contra mim em Roma quando souberam das imagens. Os cães! Têm a moral das tribos mestiças de que descendem. Mas — graças, sem dúvida, a ti e aos meus outros amigos — derrotei-os. Recebi uma carta oficial em nome de César (escrita por um dos libertos de Sejano) elogiando-me por ter saído de uma situação difícil sem derramamento de sangue e ao mesmo tempo censurando a minha ação por ter entrado nela. A moral é que não se deve falhar; deve-se realmente pensar muito antes de agir, mas depois ir até ao fim apesar de toda a oposição.

Antipas está demasiado ocupado com os seus esquemas contra mim. Já passaram muitas semanas desde que ele prendeu João e acaba de me enviar uma carta, uma peça suave e

hipócrita, dizendo que um certo João, um fanático perigoso, fora preso do seu lado da fronteira, mas como o homem pertencia [?] pregou insatisfação durante um tempo considerável dentro da minha fronteira, presumia que eu desejaria lidar com ele [?] estavam prontos a entregar-mo. [Nota: o bordo esquerdo da fotografia corta alguns caracteres nesta página; as palavras entre parênteses retos são reconstruções de melhor esforço.] Respondi que os meus oficiais várias vezes teriam prendido João se ele estivesse no território de Antipas e que Antipas, portanto, devia tratar dos incidentes que surgiram no seu próprio terreno. [Tenho?] dificuldades minhas próprias, pois ouço que alguns dos seguidores de João andam para cima e para baixo, seguindo o seu exemplo e, [?] que o senhor deles voltará.

«[Para passar à?] construção de estradas e aquedutos. Estou realmente feliz quando vejo os bandos de trabalhadores a trabalhar nas estradas das colinas acima [re]para bem, meu bom Sêneca, não «estrada», pois estou a refazer tanto a que sobe da costa como a que [conduz?] e Jericó. «Porquê incomodar-se?», dizes tu. «Isso não é uma extravagância?» Não, porque por essas estradas os materiais [para?] um aqueduto. Orgulhar-me-ei do aqueduto, posso assegurar-te. Confiarei nele para perpetuar o meu nome na história. Passei mais tempo nas colinas a sul de Jerusalém durante as últimas semanas do que passei em Cesareia. Há vinte e quatro milhas [i]magináveis a dominar e eu cavalgo de ponto em ponto, observando os homens a cortar as colinas, a partir [?] a lançar os alicerces dos meus reservatórios. Recrutei trabalhadores de todas as regiões circundantes, da Galileia, [Jor]dão, Idumeia e até da Síria, mas comparativamente poucos de Jerusalém, o lugar que há de beneficiar. Os [judeus?] não têm nada a ver connosco, mesmo quando procuramos ajudá-los. Não têm senão desprezo pelos samaritanos e [?] parte para lhes trazer um bom abastecimento de água. Prefeririam ficar sem água, ou tê-la suja, a tomar uma [?] romana. Há um Rabi em Jerusalém que disse que provavelmente só havia dois judeus realmente bons em toda a [hi]stória. [Pes]soa. Ou talvez, acrescentou, houvesse apenas um — ele próprio.

[O?] custo do aqueduto [pesa sobre mim?]. Estou ansioso com o custo do aqueduto. Os homens são pagos regularmente, mas em breve serão devidas grandes somas aos empreiteiros. Não podem sair dos impostos comuns nem, tanto quanto consigo ver, posso fazer um lançamento especial que produza a quantia necessária. Pedi ao Sinédrio que me [fizesse?] sugestões, mas eles não ajudam. Falam e falam, mas não fazem propostas. Dizem que os empreiteiros são extorsivos, ou admitem a necessidade do aqueduto mas dizem que a obra devia ter sido adiada, ou declaram abertamente que Roma devia pagar por ele. Fá-los-ei cantar uma melodia diferente, quando tiver acabado com eles.

PRIMEIRA MENÇÃO DE YESHUA Cesareia

O Sinédrio é obstinado. Disse-lhes que devem encontrar meios e modos dentro de três meses de pagar o aqueduto e [inter]mináveis conferências com os seus principais homens. Repito até estar cansado — «Pela primeira vez na sua história, Jerusalém terá boa água potável. É essencial para a saúde da vossa grande cidade.» Eles permanecem impassíveis. Um deles disse altivamente — «Água para beber não é de importância real. Isso é apenas um assunto do corpo impuro. O que importa é o provisionamento para a alma — água para as abluções ordenadas pela nossa Lei.» (Eles estão sempre nas suas lavagens cerimoniais; nunca consegui compreender como pessoas que se lavam [tantas vezes por d]ia.) Este argumento deu-me uma oportunidade. «Precisamente», repliquei, «necessitais de grandes quantidades de água para as vossas abluções [e sa]crifícios.» (Eles têm, deves saber, uma enorme bacia de água no Templo para lavar o sangue dos sacrifícios.) «[Portan]to, é uma questão de religião tanto como de saúde e decência, e eu devia esperar que estivésseis preparados tanto para me apoiar [na es]colha que estou a fazer-vos.»

Então uma ideia brilhante veio-me à cabeça. «Uma vez», acrescentei, «que o aqueduto, segundo as vossas próprias palavras, será uma grande ajuda para os vossos exercícios religiosos, porque não pagá-lo com o dinheiro do Templo?» Mal acreditarias com que fúria eles receberam esta sugestão razoável. «Roubo» e «sacrilégio» foram as palavras mais fracas que usaram. Protestei-lhes que podiam considerá-lo um empréstimo e, impondo um lançamento [sobre?] Jerusalém e espalhando-o por doze meses (ou mais, se eles escolhessem), reembolsar os fundos do Templo. Eles estavam quase [?] mas eu mantive-me firme e ordenei-lhes que levassem a proposta perante uma reunião formal do Sinédrio completo. Quanto mais penso, [quão?] agradável este projeto me parece. Resolve as dificuldades com tal simplicidade.

As notícias na tua última carta dão uma leitura divertida. Pensei que já tínhamos caído suficientemente baixo quando rebentos das nossas antigas casas nobres [causavam?] motins nos Jogos, mas nunca esperei ouvir que um Cláudio estava a lutar como um gladiador comum diante da ralé imunda, favorecendo como ator no palco. Não tenho, receio, restos de mexericos tão excitantes para ti. Um dos Rabis que olhava [com] favor para o meu aqueduto foi assassinado ontem, ao sair de casa para o Sinédrio. Cinco rufiões caíram sobre ele [com?] mais de vinte feridas. Não há a menor hipótese de apanhar os assassinos, embora o esconderijo deles seja [conhecido do?] povo. Relatórios da fronteira afirmam que outro pregador errante, um Yeshua, apareceu na Galileia; disse [que mantivessem um?] olho sobre ele. A única filha de um dos principais sacerdotes de Jerusalém fugiu com um mercador grego. Eles queriam [?] e declararam que ela levou algum do dinheiro do pai. Ele pode dispensá-lo. Infelizmente! os soldados não chegaram à [casa até ela ter] partido em segurança, e hoje estou muito nas boas graças de Prócula.

[Podes imaginar?] o meu espanto com a tua carta. Que dirá Tibério César quando souber que um Cláudio se tornou gladiador! (Nota: O Imperador Tibério pertencia à linha claudiana, que era notória pela sua arrogância. «O orgulho da família claudiana», diz Tácito, «era inveterado na sua natureza.»)

MORTE DE JOÃO E PERGUNTAS SOBRE YESHUA Jerusalém

Vim a Jerusalém para resolver a minha disputa com o Sinédrio e desta vez falo a sério. Eles recusam formalmente fazer qualquer contribuição do tributo do Templo, nem mesmo por alguns meses. Enviaram-me uma missiva cansativa (escrita tediosa) argumentando que um aqueduto é um assunto Imperial e que o tesouro de César devia pagar por ele. No máximo, só admitem que devia ser pago com

a tributação comum da província, e essa, dizem eles, já é mais pesada do que a província pode suportar. São insolentes a ponto de afirmar que o abastecimento de água para as abluções cerimoniais exigidas pela Lei deles sempre foi suficiente e que as suas outras necessidades não justificam uma despesa tão pródiga. Informei-os de que o dinheiro deve ser encontrado sem demora e de que, se necessário, tomarei medidas para o encontrar por eles.

Não tenho paciência com a preciosa Lei deles, que os cerca (e a nós) a cada passo com regulamentos minuciosos. Parte dela vem de Moisés, mas muito dela é criação deles próprios. Os seus homens eruditos passaram as suas vidas pelos seus livros Sagrados, mas a parte mais tediosa, tanto quanto consigo aprender, é da sua própria criação. Consegues acreditar que eles têm volumes inteiros escritos sobre gerações a conceber as regras religiosas mais elaboradas e ridículas? Já ouviste falar das regras deles para a lavagem e de que há um ou dois tomos dedicados unicamente ao assunto da lavagem antes das refeições? Já ouviste falar do Rabi que morreu de sede? Estava fechado numa cidade sitiada e fora-lhe atribuída meia colher de água por dia. Usou-a toda para lavagens cerimoniais e morreu em agonias de sede. Gostaria de pôr o velho Anás a esse teste. Ou conheces a história da mula piedosa? Pertencia a um sacerdote que não tocava em comida sobre a qual, na compra, o dízimo não tivesse sido pago ao Templo. Durante dias, a mula recusou a comida. Estava doente? Estava coxa? Era apenas teimosia de mula? Não, meu caro Sêneca, acredita-me: descobriram que, quando a sua comida foi comprada, o dízimo não fora pago ao Templo. Ela não quebraria a Lei. São todos mulas em Jerusalém.

A propósito, não serei mais incomodado por João, o pregador, filho de Zacarias. Ele morreu. Recebi uma intimação formal do Governador do castelo de Maquerus. Recebeu ordens do seu senhor Herodes Antipas — despachadas da sua capital, Tiberíades, na Galileia — para executar João como fomentador de rebelião e informar-me do facto. Houve, ao que ouço, uma razão especial para a ação de Antipas. Lembras-te de que te disse que outro agitador chamado Yeshua aparecera na Galileia. Alexandre, que sabe muito do que se passa — e me conta porque tem ciúmes do digno José — diz que Yeshua veio originalmente da Galileia para visitar João. Estava realmente na Judeia quando a notícia se espalhou de que João fora preso, e então fugiu para o seu próprio país. Lá está a jogar exatamente o mesmo jogo que o seu senhor. Está a exortar os seus compatriotas a serem humildes (gosto dele por isso) e a falar em grande sobre o reino que há de vir. Também se estabeleceu como fazedor de maravilhas, curando pessoas doentes e vários loucos (são numerosos na Galileia) e, é claro, isso atrai a turba supersticiosa. Antipas não gostaria disso em caso nenhum, mas o que realmente o perturbou foi a descoberta de que comunicações têm estado a passar entre Yeshua e os seguidores de João. Portanto, muito sabiamente, fez um fim de João e já está — José confirma isto — a inquirir sobre Yeshua. Terei bom fundamento de queixa se ele deixar este assunto crescer.

Há um lado disto que me diverte e me delicia. Yeshua está a disputar com os advogados e os sacerdotes. Tudo o que toca a Lei ou ameaça a autoridade deles desperta o ciúme instantâneo deles. Tal como disse ao Sinédrio que espero que me reportem qualquer agitação de que ouçam falar, também faço questão de lhes dar a conhecer bruscamente qualquer negligência que lhes possa imputar. Informei Caifás dos relatórios sobre Yeshua que me chegavam e disse-lhe que, uma vez que o Sinédrio reclamava autoridade até na Galileia, era melhor que ele cuidasse disso. Ele respondeu imediatamente com ênfase, dizendo que, pelo que tinham ouvido de Yeshua, embora fosse pouco ainda, o desaprovavam cordialmente e que estavam a enviar uma deputação de homens eruditos à Galileia para o examinar. Em si mesmo, um homem é uma pessoa sem importância, o filho de um trabalhador comum. Mas então, Simão, um dos patifes que arranjou problemas há alguns anos, era, junto com outros, outro fazedor de problemas, era um pastor. É o pior destes judeus: a posição nada significa para eles. Seguirão qualquer filho do solo, se ele souber lutar bem, roubar bem ou falar bem — especialmente se ele entretecer algumas maravilhas — e, antes que saibas onde estás, estabelecê-lo-ão como rei. Contudo, com Antipas e o Sinédrio a vigiá-lo, e comigo à espera dele na Judeia, é uma perspetiva pobre para Yeshua.

Em qualquer caso, não consigo sentir-me excitado com nada presentemente, exceto o meu aqueduto. É uma obra nobre, digna de figurar ao lado da de Herodes em Cesareia. Podes sugerir-me como hei de obter o dinheiro? Os meus ouvidos estão bem abertos. Mas espera com paciência. Tenho um segredo; esfrego as mãos por causa dele, mas não me atrevo a contá-lo nem a ti. Espero, quando escrever da próxima vez, informar-te de que tenho o dinheiro nas minhas mãos, e obtê-lo-ei, ainda que os judeus sofram por isso.

APREENSÃO DO TRIBUTO DO TEMPLO Jerusalém

Há três dias, de manhã cedo, apreendi o tributo do Templo. Não todo — admira a minha moderação. Não assaltei o tesouro no próprio Templo, pois isso teria significado uma batalha campal e baixas que eu não podia suportar. Desculparás a minha hesitação, penso, quando te lembrares das circunstâncias dos meus exemplares mais afortunados: Crasso ocupara Jerusalém com um grande exército, quando estava a caminho da Pártia, enquanto Sabino tomou realmente o Templo de assalto. Tanto as minhas pretensões como os meus métodos foram mais modestos. O tributo do Templo é trazido a Jerusalém das comunidades judaicas estrangeiras por esta altura de cada ano (no início da primavera). O Egito, a Ásia Menor e a região do Eufrates são os maiores contribuintes. A maior parte vem em moeda, mas há também os ricos dons dos piedosos: baixela para o serviço do Templo, joias e ornamentos, ouro para ser fundido. A contribuição do Egito, infelizmente! chegou ao Templo em segurança há uma semana, mas a das cidades asiáticas estava à espera de uma escolta em Cesareia e a do Eufrates (incluía uma bela barra de ouro maciço, dom de Ctesifonte) estava sob escolta a algumas milhas de Jerusalém. Os judeus, devo explicar, enviam guardas seus próprios, mas dentro da província o governador fornece uma escolta militar. O cofre que chegara a Cesareia confisquei-o sem mais demoras. Os judeus não puderam resistir; foram-se embora, a uivar, para Jerusalém, e ao chegar descobriram que o mesmo destino acontecera à caravana do Eufrates. Isso exigiu algum arranjo. Duplicámos a escolta na última noite e, quando a caravana chegou à vizinhança do Templo de manhã cedo, Márcio saiu da Antonia com uma coorte completa e literalmente correu com toda a procissão para dentro da cidadela. A cena foi realmente cómica. Os nossos homens gozaram-na cabalmente. Foi tudo feito tão depressa que os guardas judeus, que incluíam funcionários altamente dignos, mal podiam acreditar nos seus olhos quando viram as portas da Antonia fechadas atrás deles e os meus homens a contar e a carregar metodicamente os cofres. Um ou dois foram tolos o suficiente para oferecer resistência, mas depressa curámos isso. Nenhum derramamento de sangue, mas eles tinham algumas nódoas negras

para mostrar aos seus compatriotas.

O alvoroço sobre as imagens no meu primeiro ano — lembras-te desse incidente lamentável? — não foi nada comparado com o que aconteceu agora. Toda Jerusalém saiu dentro de uma hora. Gritavam e berravam, ameaçavam deitar abaixo o aqueduto, batiam nas paredes da Antonia com os punhos. Os sacerdotes apinhavam-se numa massa densa em volta do tesouro do Templo, não fosse ele também ser atacado por mim. A perda de dinheiro toca-lhes no vivo. Desta vez, não estava disposto a deixá-los manifestar-se durante dias. Vesti um grande [?] de soldados com roupas comuns, sob as quais as armas deles estavam escondidas. Alguns fiz sair da Antonia antes do amanhecer. Outro [?] foi escondido no palácio de Herodes. Eram todos samaritanos e idumeus, de modo que podiam disfarçar-se facilmente sem medo de serem reconhecidos. Eram cerca de mil deles. Reuniram-se nos arredores da multidão e participaram nos gritos. Pelo que sei de alguns deles, diria que fizeram tudo o que podiam para estimular a turba. À tarde, saí para a torre acima da porta. Anunciei que o dinheiro seria usado por mim em benefício deles, da maneira que eu julgasse adequada. Depois dispersei-os. Tumulto redobrado; ameaças contra o governador sacrílego, maldições e até pedras. Uma trombeta soou, e os meus belos companheiros, revelando as armas, caíram sobre a turba. O grito de raiva e terror que se levantou poderia ter sido ouvido em Roma. A multidão fugiu em debandada, mas o aperto era tão grande que muitos não conseguiram escapar para as ruas estreitas e os braços dos soldados [não?] estavam ociosos. Não sei quantos foram mortos, pois os mortos foram rapidamente levados pelos amigos, mas o número foi grande. Tudo tem estado calmo desde então. Dir-te-ei que proibi estritamente os meus homens de perseguirem a multidão para dentro do Templo e a ordem foi obedecida. Não vi nada de Anás e Caifás. Espero que eles não tenham vindo, mas que tenham enviado alguma mensagem astuta para lhes dizer. Estão a enviar a deputação habitual a Roma, mas não estou nervoso com o resultado. Os empreiteiros principais, a quem já paguei com o dinheiro do Templo, são bons amigos de Sejano e não têm dúvida de que, com uma despesa criteriosa entre os libertos dele, tudo correrá bem.

Portanto, estou satisfeito. O aqueduto será em breve concluído e há dinheiro e de sobra para o pagar. Resolvi algumas das minhas contas com os judeus e especialmente com os seus sacerdotes negociantes de religião. Eles tiveram uma lição aguda — esperemos que tirem proveito dela. Contudo, receio que o tom desta carta não te agrade, meu caro Sêneca. Farei, portanto, uma sugestão. Queixaste-te do tom da minha carta para ti: do ruído, das rendas exorbitantes, do preço e da má qualidade da comida. Visita-me, então, na Judeia, também para restaurar o teu espírito esgotado. Não imagines o admirável Horácio, que aqueles que cruzam os mares em busca do perdido e não da sua mente? Ah, mas cruza para a Judeia e vê se o clima não sofrerá uma mudança impressionante. Sei que estou [dis?]posto a preparar-me contra os judeus; é um ridículo justo. Mas eu vivo entre eles; tu só vês as suas lojas e sinagogas a uma distância segura, ao passares apressadamente na tua liteira para uma causa, como uma festa ou uma reunião de espíritos.

UMA LIÇÃO AOS GALILEUS Jerusalém

Escrevo-te novamente antes de partir para uma das minhas inspeções periódicas da província. Márcio e José avisam-me ambos que terei uma má receção por causa da apreensão do dinheiro sagrado. Não tenho tanta certeza. É sacrilégio, é claro, para todos eles, mas as gentes do campo não amam o sacerdócio ganancioso e ávido de Jerusalém, que engorda com as suas ofertas e, além disso, só Jerusalém beneficia do meu dom de boa água. Porque hão os galileus de pagar por motins de rua em Jerusalém? Porque há a Galileia de pagar o tributo do Templo contra a espoliação? Talvez, afinal, eu não seja completamente impopular. Farei o povo saber que o Sinédrio deles queria pagar o aqueduto com os impostos do povo.

Já passou um mês desde o golpe, sobre o qual recebi muitas felicitações dos meus amigos. Exceto por um episódio sério, tenho estado bastante pacífico. Não enfraqueci na minha determinação. Proibi todas as manifestações, reuniões públicas e até as ruas. Isso pôs fim à oratória de esquina deles. Os piores dos ofensores não eram os próprios sacerdotes e advogados, mas os jovens sabichões que assistem às suas palestras e fornecem os espíritos que ao povo comum faltam. Houve um homem em particular, um companheiro pertinaz, um judeu de Tarsus de boca alta e cortador de lógica, que tinha muito a dizer, quando preso, sobre ser um cidadão romano. Descobriu-se que ele era, portanto foi libertado, mas disse ao centurião que lhe sussurrasse para não voltar às nossas mãos, pois até um cidadão romano poderia ser morto ao tentar fugir. Houve também cartazes sediciosos, durante os primeiros dias, difamando-me a mim e a César. A cidade irrompeu numa perfeita erupção deles, até apanharmos um grupo de três a trabalhar nas paredes da Antonia durante a noite. Havia outra coisa na parede da Antonia, além de cartazes, de manhã.

Houve um incidente sério. Foi produzido por um grupo de galileus que subiu ao Templo. Estas pessoas nunca estão [à vontade em?] Jerusalém. São consideradas uma raça mista, um pouco inferior ao judeu pure da Judeia, e é bem assim, diria eu, estando tão [perto?] de fenícios e gregos e de várias espécies de sírios. Os galileus consideram-se tão bons como qualquer judeu vivo; são todos ainda [mais?] desafiadores de nós, Romanos, porque são governados por Antipas, e, em qualquer caso, uma visita a Jerusalém é para eles uma excursão em que entram com espíritos altos e ruidosos. Este grupo, que chegou há quinze dias, ouvira falar da minha apreensão do dinheiro do Templo, mas não ouvira que as manifestações estavam proibidas. Quando a ralé ruidosa chegou à Antonia, enviei um aviso, mas eles insultaram-nos furiosamente e declararam que, ao entrar no Templo, protestariam contra o sacrifício costumeiro a César e a Roma. Mandei-os seguir para o pátio exterior do Templo por uma tropa de soldados que caiu sobre eles com espadas enquanto estavam a [comprar?] os animais para os seus próprios sacrifícios. Os outros judeus observavam. Penso que esta prova de que eu não pararia nem mesmo antes de entrar no Templo causou uma boa impressão. O resto do grupo galileu partiu novamente para o seu próprio país no mesmo dia e, quando espalharem a notícia, isso deverá ensinar aos seus compatriotas a não tomarem liberdades comigo. Enviei um relatório a Antipas e roguei-lhe que contivesse melhor os seus súbditos.

Não gosto do que me contas sobre a prevalência de «informadores» em Roma. Se um homem toma partido a favor ou contra Sejano, corre o risco e [deve?] queixar-se do resultado, mas este sistema está a expor até os mais inocentes à maldade e à vingança privadas. Certamente um romano [devia?] estar a salvo da denúncia pelo seu liberto. Aqui não presto atenção a informadores anónimos, embora haja muitos deles em

atividade. Aqueles que mais nos odeiam estão sempre a procurar arruinar os sacerdotes e nobres que trabalham connosco, mas, a menos que o acusador esteja preparado para se apresentar, não o escuto. Nisso sei que terei o teu apoio. Para a rebelião, nenhuma misericórdia! Mas a nossa justiça romana não deve ser usada para resolver rancores privados. «Admirável», diz L. Aneu Sêneca, «e sob que título vem a apropriação do dinheiro sagrado do Templo!»

INQUÉRITOS DE ANTIPAS EM NAZARÉ Cesareia

Passei quase um mês a percorrer os distritos do norte da minha província. Inspecionei postos fronteiriços, conferenciei com os meus oficiais de receita, ouvi inúmeras queixas e reparei não poucas. Queria descobrir por mim próprio se esta parte do país estava a sofrer tanto com os efeitos da seca e das más colheitas como me tinham dito. Descobri que estava. Em muitos lugares, a condição do povo era verdadeiramente miserável. Descobri que cada sinagoga fora usada como centro de má vontade contra mim, mas convoquei os anciãos das aldeias, ouvi as suas histórias de aflição e anunciei remissões de impostos. Em certos casos, prometi enviar-lhes alívio assim que regressasse a Cesareia, e é isso que estou agora a fazer. Em suma, não estou insatisfeito.

Foi um prazer estar entre os samaritanos. Têm um ódio muito simpático pelo sacerdócio de Jerusalém, que os trata como cães e os mantém fora do Templo. Os próprios samaritanos são tão bons como os verdadeiros judeus e certamente têm as mesmas características gerais: um dia são camponeses e no dia seguinte são ladrões; desta [?] vez é a charrua e na próxima é a faca ou a forquilha contra César ou Herodes ou quem quer que seja o «tirano» do dia. Mesmo assim, sou governador há três anos sem muitos problemas graves, e nisso, tanto como qualquer dos meus predecessores, exceto Valério, o fez. Se eu fosse retirado agora, deixaria a província melhor do que a encontrei. Não estou descontente.

No início da minha volta, levei Prócula até à fronteira da Galileia. Ela está a fazer uma visita à mulher do Governador da Síria, uma antiga colega de escola dela, e pus-la na estrada principal para Damasco. Enviei Alexandre com ela para a Galileia e disse-lhe que descobrisse algo para mim sobre o último agitador. Ele acompanhou-a a Damasco. Fez uma visita rápida a Nazaré, à qual Yeshua pertence, e visitou a família dele. Encontrou-os em estado de pavor. Os agentes de Antipas estiveram em Nazaré a interrogar a família sobre Yeshua e eles temem ser envolvidos em qualquer punição que lhe aconteça. Toda a cidade partilha o nervosismo deles. Parece que a família e os seus amigos realmente perseguiram Yeshua, que se move rapidamente de lugar em lugar, como todos estes pregadores fazem, e gostariam de o ter levado e fechado para o manter — ou melhor, a si próprios — fora de problemas. Disseram ao povo de Antipas que Yeshua não era inteiramente responsável pelas suas ações; ele sempre fora um pouco estranho e causara problemas à família, e nunca conseguiram controlá-lo. Certamente agora não conseguem, pois ele não só os repudia bruscamente, como as multidões que o seguem aumentam cada dia e não querem ouvir uma palavra contra ele. Portanto, as pessoas miseráveis estão em pânico. Escrevi a Caifás, insistindo em ser informado se o Sinédrio tomou alguma ação.

Lembras-te do mercador grego que fugiu com a filha de um sacerdote? Enquanto eu estava fora, ele apareceu de novo em Cesareia — sozinho. Contou a todos que a judia o deixara, mas corre a história de que ele a abandonou algures em África e os judeus enviaram um relato disso à família dela em Jerusalém. Como um tolo, persistiu em fazer a sua ronda habitual de negócios na Judeia. Falou até de visitar Jerusalém. Era um companheiro alegre, com uma cabeleira de cabelo preto, sempre a fazer graças e a rir de si próprio. Quando foi avisado para não ir a Jerusalém, disse que se tornara prosélito e, sendo convertido ao Judaísmo, seria cuidado por Yahweh. Assim, foi rindo para Jerusalém e esse é o fim dele. Desapareceu da face da terra. A jovem tinha vários irmãos e primos que estão entre os mais estritos dos estritos. Em Roma, tudo isto teria sido uma piada, mas em breve se aprende a não sorrir com tais coisas aqui. Pelo menos, devia-se aprender. O grego não aprendeu, e agora onde está ele?

TENTATIVA NA GALILEIA DE FAZER DE YESHUA REI Cesareia

Um maço de cartas tuas fez-me feliz. Os navios foram atrasados pelo tempo tempestuoso, de modo que várias cartas chegaram de uma só vez. Antes de as abrir, considero-me importante, ocupado com assuntos graves de Estado, uma parte não ineficiente da grande máquina de César. Mas quando as leio, ai de mim! desejo estar outra vez no centro do mundo, no Fórum ou no Senado, no teatro ou na antecâmara de Sejano, no meio do ruído e do fumo de Roma, onde, afinal, um homem vive realmente. Aqui nada acontece — nada, pelo menos, que importe; daqui nada pode surgir; quanto, rogo-te que me digas, saberá ou se importará Roma alguma vez com a Judeia, a não ser que haja uma guerra e que nomeações confortáveis tenham de ser encontradas para os nossos nobres ociosos no Estado-Maior do Comandante? Pronto, já desabafei. Deixa-me ver se, afinal, tenho alguma notícia para te retribuir as tuas cartas.

Prócula viu e ouviu o galileu Yeshua. Escreve-me que, assim que cruzaram para a Galileia e começaram a estrada que corre ao longo do lado ocidental do lago, começaram a ouvir falar de pouco mais. Alexandre, o fuinha, andava a farejar aqui e ali, recolhendo informações. Parece que toda a Galileia está em alvoroço com Yeshua; todos conhecem alguém que ouviu de outra pessoa que foi curada de uma doença ou outra, e o interessante (para mim) é que um número dos meus bons súbditos da Judeia também está na Galileia, seguindo o pregador, quando estariam melhor empregados a seguir os seus trabalhos em casa. Alexandre arranjara, como aconteceu, que Prócula fizesse uma paragem numa casa de quinta na extremidade norte do lago, e enquanto ela seguia — mas terás a história nas suas próprias palavras, tal como ela ma enviou:

«Chegámos subitamente a uma multidão de pessoas que se apressavam pela estrada diante de nós e pelas encostas que descem até ao mar e até ao longo da praia. Outras juntavam-se a elas dos caminhos que vinham das colinas. Ninguém reparou em nós. Eram judeus de todos os tipos — na maioria pessoas sãs e robustas, mas havia também doentes e aleijados, que se arrastavam ou eram carregados pelos amigos. A multidão estava excitada, gesticulando, apontando para um barco que seguia a linha da costa e gritando para os que estavam a bordo. Eu

pensei a princípio que estavam zangados, mas Alexandre disse que estavam a chamar Yeshua, que estava a bordo, para vir a terra e falar com eles. Continuavam a gritar as mesmas palavras uma e outra vez. Eu não conseguia perceber, porque era tudo em aramaico e, quando perguntei a [Alexandre?], ele apenas abanou a cabeça e murmurou algo sobre ser um assunto mau. Ele não me dizia o que eles queriam dizer, embora [mo tenha dito?] mais tarde. Quando parámos na casa da quinta, a multidão correu adiante e em breve pude vê-los a deixar a estrada principal e a apressar-se para a costa. Alexandre pediu permissão para ir atrás deles e eu disse que podia, desde que me levasse com ele. Assim fomos, com uma escolta — não precisas de ter medo — e ao fim de meia hora encontrámo-los todos numa grande massa, junto à água, com Yeshua de pé numa elevação no campo, a dirigir-se a eles. Havia milhares sobre milhares deles, e atrás, perto de nós, alguns grupos de judeus mais bem vestidos, que estavam afastados, a observar e a escutar. Alexandre deu uma olhadela neles e murmurou outra vez. «Espiões de Jerusalém», disse ele, e partiu para falar com eles.

«Vi o pregador claramente. É um homem estranho, magro e áspero, como se fosse queimado pelo fogo da sua paixão. Quando se vê o seu rosto e se ouve falar, está cheio de autoconfiança, imperioso, muitas vezes feroz. A multidão era ruidosa a princípio, porque os de trás não conseguiam ouvir e havia interrupções. Ele impôs-lhes silêncio com algumas palavras. Era como um general entre as legiões e eles obedeciam-lhe [como?] soldados comuns. Falava sempre como se ninguém o pudesse contradizer. Começou calmamente, mas depois levantou a voz e tornou-se áspero e veemente. Os judeus de Jerusalém estavam inquietos e a murmurar entre si. Alexandre disse que ele os estava a denunciar a eles e aos seus amigos. Nunca ouvi nada que soasse tão apaixonado e amargo. Depois tornou-se mais calmo outra vez e partiu de um modo arrebatado, como se não soubesse que as pessoas estavam lá. Houve então um murmúrio e uma agitação pela multidão [enquanto?] avançavam para ele. Alexandre não conseguia tirar os olhos dele. Não prestava atenção às minhas perguntas. «Um tempo melhor está a chegar!» e riu de um modo estranho e ansioso. Eu devia estar a citar algo [que ele disse?] para si próprio. «Um tempo melhor está a chegar!» e riu de um modo estranho e ansioso. Pensei imediatamente [que?] o pregador estivera a dizer. Ele continuava a olhar para o grupo de Jerusalém e disse que devia fazer-te um relatório imediatamente.

«Então aconteceu isto. Yeshua levantou subitamente o braço e gritou algo estranho. Eles pararam de avançar para ele e sentaram-se na relva num grande círculo à volta dele — exceto os judeus de Jerusalém, que não fizeram movimento nenhum, mas continuaram a observar. Tenho a certeza de que vi alguns deles a ir ao Sinédrio. Depois Yeshua chamou alguns que estavam perto dele e eles trouxeram-lhe pão. Ele partiu-o em pedacinhos — tão pequenos que, de onde eu estava, mal os conseguia ver. Deu-os aos homens e eles foram ao longo das filas, distribuindo-os à multidão, enquanto o pregador continuava a falar. Quem dera eu pudesse ter compreendido. Tudo o que consegui tirar de Alexandre foi que o pregador os estava a alistar como seus seguidores, mas que não era um alistamento [militar?] mas puramente religioso; o comer do pão era um símbolo de que eles se alistavam sob ele, para viver como ele vivia e fazer todas as coisas que ele lhes estivera a dizer para fazerem. Alexandre acrescentou que era perigoso, podia ser mal compreendido.

«[A coisa mais estranha?] estava para vir. Quando a cerimónia terminou, tudo ficou em silêncio por alguns segundos e depois a multidão começou a agitar-se e a falar. Gradualmente ficaram cada vez mais excitados. Yeshua disse algo aos homens à volta dele e, correndo para o mar, eles começaram a puxar o barco para perto para que ele pudesse embarcar outra vez. Quando a multidão viu que ele ia partir, [avançou?] correu adiante, gritando e berrando, e cercou-o. Alguns deles brandiam [paus?] e cacetes e facas. Eles [---] ameaçavam-no; era bastante diferente. Outros deles choravam. Muitos deles caíram aos seus pés. Todo o tempo eu conseguia [ouvir?] que estavam a gritar as mesmas palavras que eu os ouvira usar na estrada principal, quando estavam a olhar para o mar. Perguntei a [Alexandre?] o que estavam a dizer. Tive de o abanar pelo ombro antes de conseguir uma resposta dele. Estava impaciente comigo. [Ele?] disse: «é isso que eles estão a dizer. Rei de Israel! Rei dos Judeus! E Messias!» Não tenho a certeza do que o último significa, mas [tu?] saberás.

«[Vi?] que Yeshua os estava a repelir. Não os escutava. Quase os forçou a recuar com palavras e gestos. Tenho a certeza de que ele [sentia?] que eles tinham cometido um grande erro. Estava quase fora de si. Fez aqueles que estavam ajoelhados levantar-se e aqueles que [estavam a brandir armas?] colocá-las no chão. Estava mais severo e determinado do que estivera toda a tarde. Ao mesmo tempo [foi?] para o mar apressadamente, como se tivesse de fugir. A multidão seguiu lentamente, de um modo abatido. Pareciam dececionados e perplexos. «Ele está zangado com eles por o chamarem Rei dos Judeus», disse eu a Alexandre. «Ele tem razão para estar», disse [Alexandre?]. «Ele é um homem morto a partir de hoje.»

«Outro incidente. Antes de Yeshua poder entrar no barco, os judeus de Jerusalém, que tinham estado a observar cada movimento da [multidão?], desceram rapidamente a colina e falaram com ele. Encontraram-se como inimigos; eu podia ver isso, embora não pudesse ouvir as palavras. [Eles?] falaram [apenas?] alguns momentos. Disseram-lhe algo e ele olhou para eles com um rosto de pedra. Depois respondeu secamente e virou-lhes as costas. Alguns dos seus seguidores ajudaram-no a entrar no barco. Pensei que eles também estavam perplexos, e talvez com medo. Ele não estava em si. Falava e agia como se estivesse pronto para lutar contra o mundo inteiro.

«Fosse o que fosse que foi dito aos judeus de Jerusalém, eles ficaram contentes com isso. Afastaram-se a sussurrar e a sorrir e, quando eu parti, andavam entre a multidão, ocupados como abelhas. Eu sabia que eles estavam a denunciar Yeshua, porque continuavam a olhar para o mar [em direção?] ao barco. Alexandre está agora ocupado a escrever-te um relatório sobre todo o assunto.»

«Rei dos Judeus!» meu caro amigo — repara nas palavras! Sim, eu sei, é apenas na Galileia e, muito provavelmente, eu próprio não estarei [lá para o ver?]... «Confia em Antipas para cuidar disso! Gostarias de ouvir o relatório do sábio Alexandre? Ele diz:

«A Galileia levantar-se-ia a uma palavra, mas ele não diz a palavra. Ele confunde as pessoas, mesmo enquanto as atrai. Realizou estranhas [curas?], embora cada um tenha uma história diferente sobre elas e seja impossível dizer quanto disto é verdade. As reuniões a que se dirige foram como barro entre as suas mãos. Em controvérsia, ninguém lhe consegue resistir. Está em conflito aberto com os sacerdotes, os advogados e a Lei. É terrível nos seus ataques contra eles: o mais feroz e impiedoso. Derrubaria todo o sistema que os sacerdotes impuseram à nação judaica, e os sacerdotes nunca lhe perdoarão isso. Ao primeiro sinal de que o povo se está a voltar contra ele, os sacerdotes farão um fim dele.

«Há sinais de que eles estão prestes a voltar-se contra ele agora. Eles saudaram-no como o libertador esperado, o novo rei dos judeus. Ele

recusa os títulos. Esta tarde ele forçou a multidão a afastar-se quase pela força, quando o aclamaram. Nunca viste um ar tão abatido como o que eles tinham quando se afastaram. Na sua própria mente, ele não é rei nem Messias; creio que ele teme que eles insistam em tratá-lo como um ou outro. Acima de tudo, o fermento popular foi causado pelo carinho, e descobri, por inquérito cuidadoso, que em cada ocasião ele tentou esconder o que fez e assim impedir que o povo o saudasse como o libertador. Ele procura evitar o perigo que teme. A guerra que ele trava é contra o Sinédrio e a Lei. Se ele persistir, eles certamente tirar-lhe-ão a vida. Os delegados deles estavam de vigia hoje e alguns deles estão a ficar na Galileia. Mas duvido que eles estejam sob a necessidade, ou tenham a oportunidade, de o apanhar. A menos que ele fuja imediatamente, Herodes Antipas apanhá-lo-á.

«Antipas não pode fazer outra coisa depois de hoje. Ouço que Yeshua já navegou para o outro lado do lago para se refugiar no território de Herodes Filipe. Se ele ficar lá, Filipe pôr-lhe-á as mãos. Se regressar à Galileia, está perdido. Posso sugerir que seria interessante ter um relatório do Sumo Sacerdote sobre a sua visão do caso?»

Vês, então. Outro herói popular a levantar-se para me preocupar e a chamar-se Rei. Não, dirás tu, ele não o faz; são eles que o chamam Rei. E que diferença, pergunto eu, faz isso para mim? Ele está em conflito aberto com os sacerdotes, os advogados e a Lei. Eu poderia escapar-me entre os seus dedos, não o farei. Só uma coisa me aflige. Ele é presentemente um rei — um homem imperioso, feroz, consumido pela sua própria paixão, o tipo de homem a quem este povo inquieto e insurgente escuta de bom grado — não, isso não serve! Quando ele estiver morto, então podem chamá-lo rei.

A propósito, o mercador grego foi encontrado sob um monte de pedras numa ravina fora de Jerusalém. Mal havia um osso inteiro no seu corpo. Aparentemente usaram cacetes. Corre a história de que a judia partiu para Roma com um ator egípcio. Sabes como ela acabará.

FUGA DE YESHUA PARA A SÍRIA Cesareia

O quê, meu caro Sêneca, todos os judeus expulsos de Roma! Uma limpeza completa de alfaiates e modistas, prestamistas e comediantes de nariz vermelho! Ó cidade mais desejável; quem dera eu pudesse estar lá! Contudo, é injusto, como dizes, que toda a comunidade seja banida porque alguns patifes voltaram os dons do Templo para os seus próprios usos privados. Sim, sim, é injusto, mas ninguém simpatizará. Deve ser culpa deles próprios que, em todo o mundo, ninguém simpatize com um judeu maltratado — ninguém, isto é, exceto o meu Sêneca. Um pensamento terrível assalta-me. Para onde vai César enviá-los? Roga a Yahweh que não seja para a Judeia!

(Certos judeus tinham induzido Fúlvia, uma senhora romana convertida ao Judaísmo, a fazer dons ao Templo e depois apropriaram-se do dinheiro. A comunidade judaica foi então expulsa de Roma.)

(Alexandre tinha razão. Yeshua de Nazaré fugiu. Nada se ouviu dele há semanas. Não está na Galileia e não está no território de Filipe. Deve ter ido para norte, para a Síria, onde ninguém se importa com ele.)

Deixa-me contar-te primeiro sobre Caifás. O sacerdote astuto enviou-me vários dos seus relatórios untuosos e estadistas. Conheço as suas dificuldades. Ele tem de manter um olho no Governador (que tem os soldados e Roma atrás de si); nos seus próprios fariseus, que pensam que ele é obsequioso para connosco; no povo, que pode ser desviado por qualquer homem selvagem, hoje ou amanhã; e nos sacerdotes e advogados, que amam a sua lei e suspeitam que, na sua defesa, ele e os seus não são melhores do que deviam ser. Ele diz que seria caridoso supor que Yeshua é um louco, e que essa é realmente a opinião da família dele, mas, louco ou não, ele está a seduzir pessoas ignorantes, afastando-as do seu dever tanto para com a sua religião como para com as autoridades reconhecidas. Acrescenta que os delegados do Sinédrio o expuseram repetidamente, e a exposição está agora a ter rapidamente um efeito. Eles tomarão as medidas mais severas contra Yeshua, se ele vier às suas mãos, como um falso pretendente e rebelde contra a Lei e, quanto ao lado político — lembras-te de que disseram o mesmo sobre João? — eles percebem que isso pode causar-me uma preocupação legítima. Eles próprios também, diria eu, pois, a longo prazo, com estes sacerdotes governantes tudo se resume à política. É a natureza deles; todos os judeus são políticos — mas o seu Procurador também o é.

Por enquanto, então, o pregador fugiu. Tenho outros relatórios da Galileia. Parece que ele fez algumas visitas rápidas do território de Filipe, apenas para descobrir que a maré se voltara contra ele. Os acontecimentos que Prócula e Alexandre viram foram decisivos com os seus seguidores. Ele não seria o Rei deles, não reconheceria que ele era o libertador prometido. Talvez, como diz Alexandre, não faça parte da sua intenção ser uma coisa ou outra. Depois da sua recusa, os Rabis de Jerusalém perseguiram-no por toda a parte. Acharam muito mais fácil persuadir o povo de que, afinal, ele era apenas um rebelde, um inimigo da sua Lei venerada. Creio que na sua própria cidade foi feita uma tentativa de o assassinar, embora, é claro, eles tenham queixas especiais contra ele lá. Agora ele está sem amigos e desapareceu para o norte distante.

Isto é um assunto pequeno, mas ainda assim um alívio para mim. O país está bastante calmo — se aqueles teus amigos judeus não vierem de Roma! — e terei, suponho, de ficar aqui por mais alguns anos. Sou um homem pobre, apesar das ameaças em tom de brincadeira contra os judeus que eu costumava enviar-te há mais de três anos, e preferiria passar os restantes anos do meu mandato calmamente, até César me transferir. Como isto está presentemente, consigo lidar com isso confortavelmente, mas se um fanático deste tipo aceitasse a exigência popular — «dar a palavra», como disse Alexandre — eu poderia ser duramente pressionado com a força miserável e pequena que me é permitida.

PILATOS VEM A JERUSALÉM PARA A PÁSCOA Jerusalém

Vim, como de costume, para a grande festa deles, a Páscoa. Divertiu-me, quando recebi a tua carta pouco antes de deixar Cesareia, encontrar-te a queixar da congestão em Roma. Devias estar aqui. A Judeia tem estado a encher-se há semanas. Eles vêm às dezenas de milhar, com semanas de antecedência, e espalham-se pelo país, visitando os seus amigos e parentes, procurando as aldeias de onde os seus pais

vieram, e fazendo peregrinações aos lugares onde a história deles começou. Durante a última semana têm-se concentrado em Jerusalém. Cada navio que chegou a Cesareia estava apinhado por dentro e por fora. As condições a bordo de alguns deles devem ter sido repugnantes. Nunca viste tal mistura como a que sai destes navios. Alguns deles devem ter gasto o seu último cêntimo a pagar a passagem; não poucos chegaram aqui sem pagar passagem nenhuma. Conheces o tipo de mistura que sai dos Jogos em Roma — ralé dos bairros pobres e sangue azul, lado a lado. É o mesmo aqui, e o sangue azul judeu não gosta mais da ralé do que o sangue azul em Roma. Eles cheiram abominavelmente. Devias ver os aristocratas a virar os seus narizes ricos ou eruditos.

Toda a gente apinha as estradas. O fluxo é contínuo da costa, de Samaria e de Jericó. Muitos deles dormem ao ar livre. Alguns dos mais ricos trazem tendas e roupa de cama consigo. Em Jerusalém e na vizinhança, todos os que podem recebem hóspedes. Eles [estão?] ao encargo da [cidade?]... Hoje, quando me aproximei, houve um bloqueio completo por uma boa milha da cidade e, se não fosse pela [minha?] escolta, eu ainda estaria a esperar fora das muralhas.

Tenho metade da minha força total de prontidão — 2,000 homens. Não há razão para antecipar nada além das disputas habituais, mas deve-se ser prudente. Sabes como a religião excita sempre as paixões mais baixas. O judeu de Jerusalém está no seu pior nestas épocas e os visitantes ressentem-se da sua arrogância. São mais propensos a disputar no Templo, sendo esse o coração e o núcleo do culto deles! Nas sinagogas não são tão perigosos, porque a maioria destas comunidades estrangeiras tem cada uma a sua própria sinagoga, onde podem concordar razoavelmente bem, mas no Templo todos se encontram e podem disputar sobre a prioridade na oferta de sacrifícios, ou sobre a inadequação dos dons dos outros, ou sobre serem mais judeus uns do que os outros.

Tendo passado Páscoas anteriores sem distúrbios sérios, não tenho razão para estar ansioso. O perigo está no imenso [excit?]amento que subjaz à festa. Eles excitam-se até um estado de êxtase. Com todos estes milhares reunidos dos confins da terra, imaginam-se um povo livre e independente, vivem outra vez nos velhos dias, pensam que o seu Yahweh só tem de realizar uma das suas maravilhas absurdas e nós, Romanos, desapareceríamos com o vento. Se a faísca estivesse à mão, um fogo poderia facilmente ser aceso.

Sabes que, desde que cheguei hoje, os judeus têm-se queixado de que eu não expedi o transporte de alimentos para a cidade? Eles bloqueiam as estradas e depois queixam-se de que os carros de comida não passam. Mas é o modo deles. São intratáveis. Se o lugar estivesse cheio de porcos, prefeririam morrer de fome a comer.

Dir-te-ei como nos vamos sair.

REAPARECIMENTO DE YESHUA Jerusalém

Lembras-te do pregador Yeshua, que fugiu para a Síria há alguns meses para salvar a sua vida de Antipas? Ele reapareceu. O que é mais — podes achar incrível, mas é verdade — ele está a caminho de Jerusalém. Os meus espiões relatam que, tendo passado apressadamente pela [Galileia?], ele cruzou a fronteira. Despachei agentes para manter contacto com ele. Segundo as informações presentes, ele denuncia os sacerdotes a cada passo e quer dizer a sua intenção de estar em Jerusalém para a Páscoa. Traz um séquito consigo. Suponho [que há?] pessoas que estão cansadas da vida.

Foi bom da tua parte encontrar-me um especialista em viticultura tão depressa. Estes judeus têm espírito — ninguém mais agudo — e são industriosos, mas [eles?] carecem tristemente de conhecimento científico. Se não fossem sangrados pelos seus sacerdotes, teriam muito mais dinheiro para equipamento moderno, mas que se pode fazer quando uma corporação inchada de sacerdotes engorda sobre um povo empobrecido? Envia o teu especialista imediatamente, rogo-te, por via de Alexandria, e ele sairá diretamente numa ronda de visitas ao campo.

YESHUA EM JERUSALÉM Jerusalém

Até agora tudo corre bem. Derivo um divertimento modesto do que ouço das divisões e ciúmes entre estes diferentes judeus. Notavelmente [?], com o tempo, são muito mais assim quando os judeus estrangeiros estão aqui. Para começar, os fariseus extremos desprezam até os judeus do [país?] que não pertencem à sua seita especial. Para eles, um homem é bom, isto é, virtuoso, se observar a Lei minuciosamente. [De outro?] modo. Asseguro-te que, se tiverem uma mulher do povo comum a trabalhar em casa, pensam que a casa e todos os ocupantes são tornados impuros por isso. Podes imaginar quanto maior é o desprezo deles pelos judeus do Egito ou da Síria que realmente se misturam com gente pagã como tu e eu, ou Sejano e César.

Os judeus estrangeiros ressentem-se desta arrogância. Muitos deles são extremamente ricos, muitos deles (especialmente os do Egito) são mais eruditos do que os seus críticos farisaicos e, é claro, são civilizados. Contudo, quando entram no Templo, se misturam com os fariseus e escutam a [Lei?], veem-se tratados com desdéns e insinuações de que são pouco melhores do que os gregos cuja língua falam — e, muitas vezes, é a única língua que eles falam, pois não têm nem hebraico nem aramaico. Em várias ocasiões, a base quase chegou a vias de facto, mas isto é uma recreação inofensiva e eu não interfiro.

Espero ouvir mais sobre o pregador Yeshua. Estou, por duas razões, a proceder com cautela. O meu primeiro pensamento foi prendê-lo [quando?] ele entrou em Jerusalém e entrou em contacto com as multidões. Mas esse curso teria os seus perigos, numa época como esta. Desde que ele [cruzou?] a fronteira, não fez nada abertamente que o justificasse; os seus seguidores espalhariam o relato de que eu prendera um judeu nobre e patriótico, e assim, figurando uma vez mais como o opressor, eu poderia ter nas minhas mãos um surto súbito de paixão do tipo que desejo evitar. Além disso, Anás e Caifás vieram ambos ver-me. Foi imediatamente aparente que eles, e especialmente Anás, estavam extremamente desejosos de que eu removesse o que consideram um perigo para si próprios. Odeiam o homem e, sem dúvida, com boa razão. Os fariseus e os [advogados?] estão realmente perturbados com os ataques à Lei; o sacerdócio fareja um perigo para o seu sustento; enquanto Anás, Caifás e os [outros?] nobres saduceus não estão apenas preocupados com a manutenção de todo o sistema sacerdotal (eles próprios são bastante indiferentes

quanto à Lei), mas temem alguma viragem súbita dos assuntos que possa converter este Yeshua num herói nacional — e então o que seria deles e do seu poder? Sugiro-te, como assunto para uma das tuas peças ou meditações, que o maior estimulante de todos para as atividades de um homem é o desejo de Poder.)

(Enquanto eu recordava o que acontecera na Galileia, seria sábio da minha parte prender Yeshua calmamente e colocá-lo fora do caminho. Contudo, não sou tão estúpido a ponto de tirar as castanhas do fogo por eles sozinho. Quis evitar um tumulto e prometi que o problema era principalmente assunto deles, mas sem dúvida poderia dizer-me respeito a qualquer momento. Quis evitar um tumulto e prometi que esse também era o desejo deles. Eles foram enfáticos em que assim era. Eu disse: «Então segurem a minha mão por agora, mas, se houver distúrbios, agirei imediatamente e espero a vossa leal cooperação.» Isto eles me prometeram. Se nada acontecer durante a festa, é minha intenção, embora não lhes tenha dito isto, esperar até que as multidões se dispersem outra vez e depois fazer um fim de Yeshua. Não posso permitir que ele agite a Judeia como agitou a Galileia. Se ele provocar problemas durante a festa — seja pelo seu próprio ato ou pelo povo perder a cabeça por causa dele, mesmo contra a sua vontade — atacarei imediatamente. Mas os sacerdotes devem cooperar e tenho a certeza de que o farão. Compreendes cabalmente por que o farão? Não só porque odeiam este homem em particular, embora o odeiem, mas porque, se se mantiverem à parte, o caso pode facilmente tornar-se um da nação contra o Governador perverso, e isso não convém aos planos deles, e também porque há alguns deles que sabem — e eles sabem que eu sei — que estão manchados com o pincel antirromano e é melhor mostrarem-se zelosos em ajudar-me quando a oportunidade lhes for oferecida.

Yeshua está em Jerusalém. Entrou ontem. A sua entrada, se ele tinha alguma intenção de levantar a populaça, foi um fracasso. Poucos deles sabiam disso. Ele subiu pela estrada de Jericó. Estava apinhada de judeus da região do Eufrates e da Síria, que nunca tinham ouvido falar dele. Se havia galileus que o reconhecessem, eles apenas se lembrariam de que ele os falhara na Galileia no ano passado. Os seus seguidores imediatos são material pobre. Se tivesse Alexandre a seguir o grupo e José a misturar-se com a multidão geral.) São homens ignorantes e supersticiosos, que só são perigosos porque partilham a ilusão sobre líderes do seu tipo. Estão sempre à espera que Yeshua realize uma «maravilha», seja trazer um morto à vida ou matar um vivo, e pensam nele exatamente como os camponeses e trabalhadores da Galileia, esperando a qualquer momento que ele comece a libertar a nação e a trazer uma nova era. Sei, por esta altura, que um judeu no seu próprio país mal consegue pensar em outros termos.

Não houve evidência ontem, nem antes houve, de que o pregador tenha essa visão de si próprio. Entrou sem mais agitação do que a que costuma haver quando um grupo escolta alguma notabilidade local. Os seus seguidores gritaram até ficarem roucos e alguns em breve o deixaram fazê-lo, gritaram também. Se seis homens atirarem os seus bonés para o ar por uma razão, outros seis do rebanho seguirão o exemplo. Tomei todas as precauções. Tinha soldados disfarçados a andar com a multidão para Jericó e mais alguns prontos à entrada da cidade. Márcio tinha ordens, se alguma tentativa fosse feita para excitar a turba, de abater Yeshua e os seus seguidores imediatamente, mas nada aconteceu. Isso não quer dizer que nada acontecerá. Alexandre ganhou a confiança de alguns dos seguidores do pregador. Ele diz que eles têm as ideias mais extraordinárias sobre a mudança brilhante que vai acontecer às suas fortunas, mas que tudo o que o líder deles tenciona — Alexandre é positivo sobre isto — é prosseguir em Jerusalém a sua disputa com o sacerdócio e a Lei. É suficiente.

Espero não estar enganado ao acreditar que estás interessado nestas longas explicações. Se estivesse a escrever a qualquer outra pessoa, diria apenas «há motivos para temer outra agitação pestilenta e tenciono esmagá-la enquanto posso.»

CENA NO TEMPLO E DECISÃO DE PRENDER YESHUA Jerusalém

Tanto Herodes Antipas como o irmão Filipe estão em Jerusalém. Estes principezinhos comportam-se como se fossem donos do Oriente. Trouxeram presentes ricos para o Templo, posam, cultivam os judeus. Vão em procissão de e para os serviços do Templo e a turba, que esqueceu quantos judeus o velho Herodes torturou, queimou ou crucificou, aplaude e grita por eles como se fosse uma coisa bela ter Herodes em vez de mim na Antonia. Não me encontrei com os príncipes, mas coloquei uma guarda de soldados romanos às suas portas. É uma marca própria de respeito; é também uma dica de que mantemos um olho sobre eles. Algumas das famílias nobres que apoiaram o pai enviaram representantes para esperar pelos filhos e acompanhá-los ao Templo, mas o círculo governante, aqueles que têm cargo e aqueles que esperam tê-lo, mantêm-se afastados. Eles sabem de que lado o seu pão está barrado.

O assunto de Yeshua está a chegar ao auge. Ontem, acompanhado pelos seus seguidores imediatos, ele visitou o Templo. Parou no pátio exterior, que é tão enorme como — digamos — uma feira, cheio da parafernália para dons e sacrifícios do Templo, e apinhado de milhares de judeus a regatear e argumentar no topo das suas vozes numa vintena de línguas e dialetos. Conheces aquele mercado deles em Roma que se leva os visitantes a ver por curiosidade. É assim, cem vezes o tumulto. Subitamente Yeshua começou a assaltar os seus inimigos, os sacerdotes, e todas as suas obras, nos termos mais violentos. Tanto quanto consigo aprender, ele denunciou todo o negócio de ritual do Templo. Muito sensato também, exceto pela sua própria segurança. Se tivesse sido compreendido ou atraído larga atenção, teria sido assassinado no local. Se te lembrares de que a vida destes judeus, não só aqui mas até aos confins da terra, se centra no culto do Templo e que é um negócio altamente organizado, controlado por uma corporação poderosa e ciumenta, verás que só um louco ou um suicida agiria assim. Como foi, houve apenas uma escaramuça e a coisa passou. Foi bastante como a sua entrada na Cidade. Ele próprio fala aramaico e uma grande parte dos seus ouvintes não teria ideia do seu significado. Além disso, o ruído é espantoso. Conheces os judeus; se não fores ruidoso, eles pensam que estás doente. Nada de todo resultou do assunto e, se era destinado a ser uma manifestação, foi outro fracasso. Yeshua deixou o Templo outra vez, junto com os seus seguidores que, segundo os meus relatórios, não estão a tirar nada da sua visita a Jerusalém senão vexação e deceção. Isto não é de todo o tipo de coisa que eles anteciparam. Denúncias do culto do Templo no Templo são prováveis de ter um fim infeliz para eles, como provavelmente suspeitam.

Este incidente jogou a meu favor. O homem é um fracasso declarado. Ignorado a princípio, ele agora ofendeu além do perdão. Poucas pessoas podem ter ouvido e visto o seu surto, mas muitas saberão disso antes da noite. Poderás dizer que, se ele falhou tão assinaladamente, também é negligenciável. Possivelmente, mas há um risco, e eu não corro riscos. Considera a audácia da sua ação. Para mim, que sei

Contudo, farei a prisão ser executada tão calmamente quanto possível, em conjunto com o Templo. O velho raposo Anás enviou-me um emissário. Mais do que ninguém, ele tem um interesse investido na manutenção da paz; como sabes, tem vários filhos no coração contra nós, pois tenciona para os cargos mais altos. Ao mesmo tempo, tem o dedo no pulso do [povo?]... próprio, que Yeshua não é um movimento sedicioso real, mas potencial, se tivesse um fundamento sério. O seu ponto é o mesmo [que antes?]: eles não aumentarão de hora em hora — estão chocados com a sua impiedade grosseira (palavras de Anás). Ele acrescenta que, se necessário, produzirão um dos próprios seguidores de Yeshua que dará evidência condenatória sobre certas ambições que o seu senhor despertou em conversas privadas. Isso não me diz respeito. Não penso que eles se fornecerão a evidência que querem, mas já tenho tudo o que necessito. O essencial disto é que o homem é, ou pode ser, um perigo político para mim, como Antigas pensou que ele era na Galileia e reconheceu que o pregador João era, quando lhe cortou a cabeça em Maquerus e assim me poupou o trabalho. Estou a consultar os sacerdotes. Yeshua e o seu séquito passam as noites fora de Jerusalém; conhecemos o lugar. Ele será preso calmamente e executado sem demora.

Não foi pensado antes, mas darei ao meu amigo Antipas a oportunidade de condenar Yeshua. O problema começou dentro da sua jurisdição, portanto é a coisa correta e educada a fazer. Além disso, seria agradável mostrar a Antipas tanto que um fazedor de problemas [pode ser tratado pelo?] Governador romano, para execução da sentença. Sim, enviá-lo-ei a Antipas.

PRISÃO DE YESHUA Jerusalém

O teu liberto Krito chegou esta manhã, trazendo as tuas cartas e outras que apanhara para mim em Cesareia. Ele parte de volta imediatamente, portanto a carta que te escrevo agora será curta. Quem dera que fossem apenas as tuas cartas que ele me trouxera, pois elas deram-me o prazer que sinto sempre ao ouvir de ti em Roma. Mas, mal as li, fui lançado em mau humor pela notícia de Cesareia. Sabes — tenho a certeza de que já te disseram antes — que, quando a Páscoa termina e uma grande parte da [multidão se dispersa?]. Perguntas se eles vêm aos meus Jogos? É claro que vêm. Não são fariseus. São [marinheiros?] gregos, judeus asiáticos, [e?] eram gentes mais alegres e humanas do que os seus ásperos irmãos da Judeia.

Poderia alguma coisa ser mais exasperante do que o golpe que me aconteceu? Em primeiro lugar, um navio que trazia seis leões da Cirenaica naufragou. A tripulação nem sequer teve o bom senso [de se salvar?]. [Um] mais sério é a perda do meu gladiador Audiatius, um gaulês, o melhor espadachim do Oriente. Desde que vim para aqui, ele lutou em quase cinquenta competições e nunca foi derrotado. As mulheres amam-no. O melhor espadachim do Oriente. [Repetição no livro impresso; transcrito tal como visto.] [Várias linhas aqui estão parcialmente obscurecidas pela sombra na fotografia.]

Com esta carreira em Roma. Ora, ele poderia ter apanhado o olhar de César, entrado na sua Casa e controlado o [Egito?]... uma rapariga com dois trácios, e conhecendo o valor que eu lhe atribuía, ele foi inconsiderado o bastante para entrar num [concurso?]... eles para os Jogos. Por amor, estou aborrecido. ...o aqueduto. Funciona admiravelmente e tenho razão para saber que os judeus estrangeiros me aplaudem por ele. Estão obrigados a fazê-lo, pelo meu uso do dinheiro do Templo, mas veem que não estou atrás dos Governadores de províncias mais importantes no meu cuidado pelo nome romano e pela saúde do meu povo. Os judeus aqui também usam a água, até os fariseus. Os únicos [que?] não mostram gratidão.

[Yeshua?] foi preso na noite passada. Forneci uma tropa de soldados que acompanharam os funcionários do Sinédrio. A vantagem é que, à medida que a notícia se espalhou esta manhã — espalhou-se —, seria sabido que o Procurador e o Sinédrio agiram conjuntamente. O Sinédrio não é popular com os judeus mais zelosos, mas a impressão geral seria que, se todas as autoridades, romanas e judaicas, estavam a agir juntas, este devia ser um companheiro incómodo que estava melhor fora do caminho. A prisão foi feita sem distúrbio. O próprio Yeshua não deu [resistência?] de imediato. Creio que alguns deles já estão bem a caminho de casa.

O prisioneiro foi levado para os aposentos do Sumo Sacerdote até esta manhã, quando foi entregue ao meu povo. Creio que Caifás reuniu alguns dos principais sacerdotes e eles questionaram-no por si próprios. O caso é perfeitamente simples, do meu ponto de vista, e não dará dificuldade. Uma vez que Antipas não lidará com o assunto — chego a isso num momento — executarei Yeshua como um fazedor ou um [líder?] contra César. Mas estes sacerdotes têm sempre de se lembrar que a sedição contra César é geralmente um mérito aos olhos da populaça (e de bastantes fariseus também), e eles quererão apresentar um bom caso para si próprios. Insistirão, suponho, na Lei, nos ataques ao ritual e no surto no Templo. Provavelmente dirão que ele se considerava o Messias esperado (do qual não há evidência), e o povo, de boca aberta, não tem utilidade para um Messias que não consegue manter [eles livres?]... [termina?] dos romanos desprezados. Esse não é o tipo de libertador que os judeus querem, mais do que os próprios seguidores dele.

Não vi o homem em pessoa, embora o faça presentemente. Dei ordens para que ele fosse levado a Antipas, como dissera que faria, com uma declaração educada de que, como o perturbador da paz era um galileu, ele talvez considerasse que o assunto estava dentro da sua jurisdição. Recebi uma resposta, igualmente educada, de que Antipas reconhecia a minha cortesia, mas renunciava a qualquer direito que pudesse ter sobre um ofensor na minha Cidade de

Jerusalém. Uma troca tocante de cortesias! Concluirei o assunto hoje. O teu liberto espera, mas mais uma palavra. É verdade, como ouço de Lêntulo Spinter, que o sobrinho de Sejano foi recusado numa audiência por César e que Sejano duplicou a Guarda Pretoriana em Roma? E se Sejano cair? E se ele se recusar a cair? Não te tornes famoso demasiado apressadamente, meu amigo. A obscuridade, embora inglória, é segura. Quando o senhor caminha pelos campos com um pau na mão, afortunada é a papoila com cabeça inconspícua. (Nota: Sejano foi sumariamente executado no ano seguinte e os seus amigos foram envolvidos na catástrofe.)

JULGAMENTO E EXECUÇÃO DE YESHUA Jerusalém Devo completar a carta que comecei esta manhã. Imediatamente depois de despachar Krito, confirmei com Márcio os arranjos militares para a Páscoa, que começa amanhã. Ouvi relatórios de José, que pensa que atos de violência contra indivíduos entre os saduceus governantes aumentarão. Na sua opinião, não importa muito se a província está tão calma como eu consigo mantê-la ou se há fricção constante entre nós e os judeus; o seu sentimento é que os homens extremos estão cansados da paz. Depois julguei e condenei o prisioneiro Yeshua. Ele foi crucificado imediatamente, junto com alguns outros prisioneiros que aguardavam execução. Não é mau ter uma lição objetiva deste tipo na véspera da Páscoa porque, numa reunião tão indescritível como a que temos aqui, deve haver sempre caracteres perigosos que têm oportunidades excecionais para as suas qualidades especiais. Por esta altura, Yeshua está enterrado. É costume deles enterrar um ofensor executado no mesmo dia e, além disso, o Sábado começa ao pôr-do-sol — já começou, realmente. O Sinédrio pediu permissão para enterrar o corpo esta tarde. Convém-lhes, tendo tirado Yeshua do seu caminho, dispor de todo o assunto antes de a Páscoa começar e assim abafar qualquer discussão que possa surgir, especialmente depois da inscrição que ordenei fosse afixada ao prisioneiro, sobre a qual mais presentemente. O julgamento foi curto, mas na devida forma e ordem. Yeshua foi acusado de perturbar a paz, de agitar a insatisfação e de afirmar ser Rei dos Judeus. Houve evidência tanto do nosso lado como do lado dos judeus, tanto da Galileia como desta cidade. Caifás, Anás e os principais saduceus foram proeminentes, e também alguns, mas não todos, dos principais fariseus; alguns dos fariseus não prestariam assistência a condenar um rebelde contra César, por muito que desejassem a sua morte como rebelde contra si próprios. Contudo, isso não o ajudou. Os sacerdotes tiveram muito a dizer dos seus ataques à religião deles, mas eu encurtei-os nisso. Se não nos é permitido interferir na religião deles, eles não podem apelar a nós quando as observâncias deles são atacadas; assim que a ofensa se torna política, direta ou indiretamente, então tomamos nota dela. Eles podem disputar sobre Yahweh, como os egípcios sobre Ísis, até rebentarem, mas quando um homem briga no Templo, ele tende a provocar uma explosão geral e isso diz-nos respeito de perto. A acusação contra Yeshua de perturbar a paz foi provada cabalmente e ele não a pôde negar. Perguntei ao prisioneiro, através de Alexandre, se ele admitia as acusações mais sérias. Os judeus alegaram que ele se considerava o libertador destinado da nação, o que envolve o fim tanto da autoridade deles como da nossa. Isto constituiria uma ofensa muito mais direta do que aquela por que Antipas mandou matar João. Eles citaram tanto as declarações públicas em que Yeshua falara de um novo reino como iminente, como também certas admissões sobre si próprio que disseram que ele fizera aos seus próprios seguidores. Isto era, suponho, a evidência especial que Anás dissera que tencionavam produzir. Fiz-lhe a pergunta. Perguntei-lhe se ele se considerava o libertador. «Assim dizem ELES», respondeu ele, indicando o Sumo Sacerdote e os seus vizinhos, com um gesto seco de desprezo. Apontei-lhe que ele era acusado também de se representar como Rei dos Judeus. Perguntei-lhe se ele se considerava isso. Ele deu a mesma resposta — «Assim dizes TU», querendo dizer, suponho, que em nenhum dos casos havia algo na sua própria conduta ou motivos que apoiasse a acusação, mas que ele sabia muito bem que nós tencionávamos, em qualquer caso, fixar a acusação sobre ele. Ele percebeu que estava encurralado, e que não havia maneira de escapar, mas era ousado e resoluto, desafiador, quase insolente. São todos iguais, estes judeus, amargos e inflexíveis, seja para connosco ou uns para com os outros. Estando sozinho ele poderia estar, abandonado e com inimigos de todos os lados que queriam a sua morte, com os seus próprios compatriotas a entregá-lo ao carrasco romano, mas era calmo e determinado, como os homens que engendraram uma tentativa contra a vida do grande Herodes e sofreram os extremos da tortura antes de cederem um centímetro. Uma raça perigosa! Condenei-o à morte. Não podia, é claro, fazer menos. Todos os caminhos levam a essa conclusão. Alexandre, que tem um modo calmo e desligado de encarar os seus compatriotas, insiste que este homem, tão longe de se apresentar como Messias, ou Rei, como a maioria dos fazedores de problemas durante os últimos trinta anos, fez tudo o que pôde para impedir que o povo estúpido lhe fixasse esse papel. Alexandre pensa que não havia nada que Yeshua procurasse evitar tanto como isto, sabendo que, se tal conceção dele se espalhasse, isso o entregaria nas nossas mãos e seria fatal para a sua campanha — uma campanha sem esperança, em qualquer caso — contra o sacerdócio e o seu sistema. Alexandre falou com alguns dos seus seguidores e diz que o pregador os avisara inquestionavelmente muitas vezes e nos termos mais severos de que não deviam considerá-lo nem falar dele como o Libertador que todos estes judeus esperam, e que foi apenas quando ele pensou que a antiga conceção dele tinha morrido na Galileia que decidiu subir a Jerusalém. Pode ser. Mas tenho a certeza de que, se ele não era um rebelde perigoso ontem, tê-lo-ia sido amanhã. Pois ou ele teria tido sucesso no seu assalto ao sacerdócio ou não. Se não tivesse, quanto tempo um homem do seu temperamento, tão apaixonado, teimoso e ousado, se teria abstido de fazer aquele apelo aos sentimentos patrióticos destes judeus que sempre — sempre — encontra uma resposta rápida, mesmo quando feito por homens de caráter muito menos poderoso do que o dele? Lembras-te da descrição de Prócula e Alexandre da cena na Galileia? E supondo que ele tivesse concebivelmente feito progressos contra os sacerdotes e toda a múmia do ritual do Templo, quanto tempo teria passado antes de ele se voltar contra César e os sacrifícios a César e a Roma? Teria ele respeitado o culto de Divus Augustus, supões tu? Mas muito antes de termos de considerar essa eventualidade, teríamos de intervir com força entre as fações contendentes deles. Ora, tal como está, eles estão quase num estado de guerra civil suprimida, prontos a voar às gargantas uns dos outros. Dá-lhes um mau governador — um governador até metade tão mau como eles dizem que eu sou —

e a disputa entre aqueles que nos toleram e aqueles que desprezam os tolerantes irromperá em guerra aberta. Este é um solo infrutífero em todos os aspetos, exceto um. As sementes da desordem crescerão se apenas arranhares o solo. A minha política é destruí-las no momento em que germinam. Mas eu esquecera-me: permite-me uma palavra sobre a inscrição que anuncia a ofensa de Yeshua. Era «Rei dos Judeus», colocada sobre a cruz. Os fariseus ficaram indignados. Eles próprios querem um Rei dos Judeus. Dar-lhes-ia o maior prazer ver César derrubado amanhã e um Rei judeu instalado — não um meio judeu como Herodes — que governaria o país através deles e suprimiria os seus rivais saduceus. Mas enfureceu-os ver o título precioso, «Rei dos Judeus», exposto ao ridículo; era um lembrete demasiado claro da sua servidão. Além disso, pensaram ser um insulto que um criminoso crucificado, um camponês presunçoso que os desafiou, fosse rotulado «Rei». Tomei um caminho curto com eles. «O que escrevi, escrevi», disse eu, e mandei-os embora. Conheço a raça. Desde o momento em que este Yeshua estabeleceu o seu julgamento individual contra o deles, eles quiseram ter a sua vida. Arranha um sacerdote e encontra um autocrata. Em todo o mundo, se um homem diz que usará a sua própria inteligência sobre coisas divinas, os sacerdotes levantam as orelhas e sentem as suas facas. Se ele vai mais longe e diz aos seus semelhantes que eles também têm direito a usar a sua própria inteligência — fora com a sua cabeça e acaba-se! Prossigo tanto, meu caro Sêneca. O assunto leva-me. Devo desculpar-me contigo outra vez; receio que até tu acharás o assunto tedioso. Pois, afinal, que importa? Que importa — um judeu a mais ou a menos? Quem dera eu pudesse encontrar um substituto para Aduatucus.